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O que fazer com o país das aldeias? Talvez ousar

Tuesday, Apr 5 2016 10:27
Não. Não foi mais uma conferência sobre a desertificação do interior do território nacional. Foi um debate sobre o que pode vir a ser o papel das aldeias no futuro do território.

Atualmente, a maioria esmagadora das aldeias não passam de meros parques de diversões sentimentais, sobretudo para adultos, que ali vão uma ou duas vez por ano matar saudades e passar em revista algumas memórias do tempo em que as suas pequenas terras tinham gente e atividade económica.

Bom, essas aldeias fazem parte do passado e de um modelo territorial que falhou, pois se tivesse sido um modelo de sucesso elas continuariam povoadas. E não estão. Pelo contrário, muitas já se extinguiram e muitas outras caminham a passos largos para a extinção.

O debate do dia 26 de março - que captou a atenção de mais de 200 pessoas (de vários distritos) durante quase seis horas, no auditório da Casa da Música da Bendada -, mesmo sendo véspera de Páscoa, em que seria muito mais lógico estar junto da família, teve o condão de nos pôr a olhar para frente.

As pessoas que rumaram à aldeia onde a estrada esbarra na Serra foram à procura do futuro. Foram ouvir quem está aos comandos do poder político e perguntar-lhe se estamos todos no mesmo barco.

Uma das perguntas/sugestões mais pertinentes da tarde veio da plateia. António Cabanas, da Meimoa, recorreu à história para lembrar que o Estado que hoje temos está a fazer exatamente o contrário do que fez, com sucesso, o Estado/Reino comandado por D. Sancho, há uns bons séculos atrás. Aquele rei (também conhecido por ter sido ‘O Povoador’) deu forais ao Interior, ou seja o poder para se fazer…, “o que é que temos hoje? Um Estado que não se cansa de retirar ao Interior o pouco poder que tem”. Poder de fazer que atualmente é quase nenhum.

Chega de distribuir o mal pelas aldeias

Augusto Mateus, antigo ministro da Economia e consultor na área da coesão territorial teve outra das frases lapidares da tarde: “nos últimos anos ou mesmo décadas, a população rural definhou porque o Estado mais não fez que distribuir o mal pelas aldeias. Não houve coragem para fazer outra coisa que não isso. Não houve e não há coragem para as prioridades”.

O ex-governante atirou em várias direções, desde o poder central ao poder local: “não fazemos povoamento porque estamos andamos distraídos a fazer uma coisa a que chamamos ordenamento, que tem pouco a ver com povoamento”. E continuou dizendo que “gerir o território rural é diferente de gerir Lisboa, Porto ou Braga. É preciso criar condições para que as pessoas possam viver bem e possam optar pelo espaço rural”. Mas, atenção, “as autarquias não só para as pessoas, também têm de dar algumas condições às empresas. E o Interior que nós temos hoje é um território sem serviços de competitividade”.

Para serem pujantes e competitivas as aldeias têm de estar viradas para a agricultura, disse Capoulas Santos, ministro da Agricultura. “Não há aldeias habitadas e não teremos um território ocupado sem uma agricultura forte, pois esta atividade continua a ser a base de uma ruralidade forte. Sem agricultura e sem florestas não haverá aldeias habitadas”, sublinhou o ministro.

O ministro lembrou que as aldeias cheias de gente que tivemos no passado falharam porque as pessoas não tinham ali as condições mínimas de sobrevivência.

O tal ‘mal’ que foi repartido pelas aldeias durante décadas não foi um exclusivo português, referiu Capoulas Santos. “A União Europeia sempre se esqueceu dos pequenos agricultores e apenas soube orientar fundos para a chamada agricultura mais competitiva”. Acontece nem todos podem estar nesse segmento da agricultura e há que apoiar também aquela que hoje é designada por ‘pequena agricultura’ e muitas vezes de subsistência. O ministro disse o dinheiro da EU também tem de chegar a quem se dedica a essa pequena agricultura, pois a maior parte das aldeias ainda estão povoadas de pequenos agricultores.

A importância da pequena agricultura

E Capoulas Santos sacou dos números para impressionar, dizendo que até 2020, ou seja, para os próximos quatro anos, há qualquer coisa como €8000 milhões para distribuir pela agricultura em geral, em Portugal. Lembrando que ao nível da pequena agricultura há, por exemplo, muito espaço para crescer na área dos hortofrutícolas. Um segmento que está a crescer 10% ao ano nas exportações e que quer duplicar o valor exportado até 2020.

Neste domínio, Portugal nunca poderá competir na quantidade mas sim na qualidade e, não menos importante, na precocidade. O facto de o território nacional ter influência mediterrânica e atlântica confere condições endafoclimáticas únicas na Europa, que fazem com que as frutas amadureçam três a quatro semanas mais cedo que nos principais países concorrentes. E chegar mais cedo ao mercado pode significar mais competitividade e mais poder negocial.

Como é que um pequeno agricultor de aldeia pode competir num mercado europeu? Organizando-se e juntando-se a muitos outros da sua dimensão para, dessa forma, ganharem poder negocial e competitividade no preço e nas condições. E há financiamento comunitário para este tipo de associações de agricultores, assim eles se entendam nos objetivos.

Sobre a pequena agricultura, Capoulas Santos lembrou também que “não há desenvolvimento das zonas rurais sem uma agricultura pujante. Se houver isto, há gabinetes de apoio, lojas de venda de materiais, infantários para os filhos dos agricultores, escolas, etc”. Ou seja, pode ser possível voltar a atrair gente para as aldeias.

A baixa densidade não é uma coisa negativa

Mesmo que as aldeias não venham a ter tanta gente como tiveram no passado, “a baixa densidade não é uma característica negativa. A tranquilidade não é uma característica negativa. Em Lisboa perco uma a duas horas no trânsito. Aqui não”, lembrou Augusto Mateus. Qual é o valor que isso tem? “Muito. E que fique bem claro que não há Interior porque a geografia não é para aqui chamada. A zona mais rica da Península Ibérica é a área urbana de Madrid e essa sim, é no Interior. Mas é a terceira cidade mais importante da Europa”.

As aldeias, porém, para vingarem, têm de inovar. A inovação não é um exclusivo das grandes cidades. “As aldeias que forem apenas aldeias não têm futuro. Tal como um aeroporto que for só um aeroporto não tem futuro, etc. A Bendada, Aldeia cultural – tal como hoje nos foi apresentada - não é apenas aldeia. É uma aldeia e mais qualquer coisa”. Isto é inovação, frisou o antigo ministro da Economia. “Não sei se este modelo vai funcionar na Bendada, porque não a conheço, mas sei que no sul de França a pequena aldeia de St. Paul de Vence fez-se como aldeia porque vários artistas plásticos, vários pintores, ali se instalaram, apenas por esta aldeia ter uma luz como não encontravam em nenhum outro sítio do país”. Esses artistas já morreram mas St. Paul de Vence ainda hoje é uma aldeia cultural pujante e conhecida mundialmente.

Inovação, ao nível das aldeias, também pode ser a opção pelo digital. João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, não tem dúvidas em afirmar que “o peso da economia digital pode ajudar a trazer centralidade para muitas aldeias. Porque é que uma aldeia do concelho do Sabugal não pode ter o maior site de vendas eletrónicas do mundo?”. Perguntou e respondeu com um exemplo, que tinha visitado há poucos dias. “Estive na Ribeira Brava, no meio das levadas da ilha da Madeira, para visitar uma empresa que gere a partir daquela aldeia mais de 500 mil lugares de estacionamento municipal em quatro continentes. E a Ribeira Brava é ‘ligeiramente’ mais afasta da nossa faixa urbana do litoral que a Bendada”.

O futuro das aldeias está nas cidades

O secretário da Estado da Indústria, que fez questão de ir à Bendada por nunca ter visto ninguém discutir a desertificação com o ‘acento tónico’ nas aldeias, foi quem ajudou a repovoar a Baixa de Lisboa, que há três anos não tinha habitantes, ali ao lado do Rossio, que tinha apenas uma família residente. Constituiu a Startup Lisboa, uma incubadora de empresas tecnológicas que deu vida a mais de 200 empresas, algumas delas estrangeiras. Encheu a Baixa de gente jovem e ajudou a criar algumas centenas de empregos.

Mas o mais surpreendente, para João Vasconcelos, é que “foi na Rua da Prata que eu descobri que as aldeias têm futuro”. Não apenas porque nada impede que outras pequenas zonas urbanas do interior se constituam com centros tecnológicos e de inovação, mas também por razões de atitude cultural e social. “Porque estes jovens que fazem startups tem uma necessidade enorme de vir para as serras e para as aldeias, passar um fim de semana inteiro em busca de evasão e de vida ao ar livre e no meio da natureza” Aliás, reforça, “esta é a geração que mais respeita a natureza e o mundo rural. Eles pagam o que for preciso para terem essas experiências”.

João Vasconcelos remata dizendo que “quanto mais urbana for a vida das cidades, melhor será o futuro das aldeias”.

Se não formos Galileus estamos condenados

Augusto Mateus vai mais longe e diz que a inovação é ecológica, empresarial, cultural não é apenas tecnológica. “Se não formos Galileus estamos condenados. Há aldeias que têm futuro, que se mexem que atraem pessoas e são essas que temos de apoiar. As políticas públicas têm de ter território e pessoas não podem ser genéricas, senão estão erradas”.

O ex-ministro e consultor na área da coesão territorial pede simplificação de processos e políticas bem direcionadas. “Desde que não nos dêm cabo da vida com burocracias e nos dêm banda larga”, isso já seria mais de meio caminho andado para o progresso do novo mundo rural.

Helena Freitas, recém-empossada coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior diz que acredita na nova geração de jovens, “muito bem preparados”, para que possam ajudar a construir uma narrativa positiva para o Interior, como pólo de criação de riqueza e de emprego.

Mas lembra que “o desenvolvimento de toda esta zona do interior passa por fortes interligações a Espanha”, sobretudo em trabalho de rede com a realidade económica e social do outro lado da fronteira.

A nova geração de redes temáticas para as aldeias

“As redes temáticas podem ser uma segunda geração de redes, a tal especialização inteligente das aldeias, ou um outro patamar de redes. Bendada, Aldeia Cultural, pode ser um bom exemplo”, nota aquela responsável. Isto, depois das Aldeias do Xisto, Aldeias Históricas, Aldeias de Montanha, etc. A internacionalização destes conceitos também pode tornar estes territórios mais conhecidos.

Importante será também tornar as redes de politécnicos mais especializadas, por exemplo em energias renováveis, hortofrutícolas, etc.

A propósito de renováveis, Jorge Seguro Sanches, secretário de Estado da Energia, frisou a importância que tem de ser dada à questão da biomassa florestal. Por três razões fundamentais: desde logo porque, para limpar florestas é preciso mão-de-obra, ou seja, podem ser gerados algumas centenas ou milhares de postos de trabalho. A segunda vantagem é o reforço da prevenção contra a ocorrência de incêndios, que todos os anos causam prejuízos de centenas de milhões de euros. A terceira componente desta equação é que com a biomassa recolhida se pode produzir energia, neste caso a partir de uma fonte renovável, pois todos os anos há necessidade de recolha de mais detritos florestais, como galhos ou ramos, folhagens, etc.

Floresta e biomassa com fonte de riqueza

A questão da floresta foi ainda o mote para o sempre adiado tema do levantamento cadastral da propriedade, que todos os Governos dizem que é urgente mas nenhum consegue resolver. Até pode custar €900 milhões de euros, como foi em tempos estimados por Augusto Mateus, mas pode ter um retorno económico de €8000 ou €9000 milhões. As contas estão feitas, falta vontade política para passar à prática, e houve mesmo quem falasse em acordo de regime para esta temática.

Mais simples poderá ser a resposta do secretário de Estado da Energia ao desafio que lhe foi colocado pela plateia: Conceder autorização para que se possam pôr os antigos moinhos de água, junto às ribeiras, a produzir também energia limpa e renovável.

Desafios inovadores que vão exigir gente inovadora e atitudes positivas perante novos desafios que se podem colocar às pequenas aldeias.

Para isso Helena Freitas diz que é fundamental trazer conhecimento para as empresas locais e para as autarquias (mais doutorados), para que assim se possa trazer mais emprego e mais gente jovem para esta parte do território. E defende também parcerias urbano-rurais.

Só que, para isso é preciso trazer para estes territórios os chamados serviços mínimos do Estado: educação, cultura, saúde e também infraestruturas como por exemplo linhas ferroviárias. “O Estado tem de oferecer a todos os portugueses as mesmas condições de qualidade de vida. Depois eles optam por onde querem viver”.

Não pode haver cidades sem aldeias

Pedro Cegonho, presidente da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE), está convencido o futuro das aldeias está diretamente relacionado com o futuro das áreas urbanas e metropolitanas. Ou seja, uma realidade tem de estar em estreita ligação com a outra na medida em se podem complementar. “Temos de ter um país mais equilibrado, em que as realidades urbana e rural cooperem para criarem mais-valias. “Se temos mais população nas áreas urbanas do que nas áreas rurais tem de se incentivar o movimento definitivo ou, na pior das hipóteses, pendular entre as duas, para que ambas fiquem a ganhar”.

Tudo porque o congestionamento das cidades, a poluição, o trânsito, o desgaste da qualidade de vida dos seus habitantes tem de ter um contraponto e isso só pode ser proporcionado pelo país rural, pelo país das aldeias. “Não vamos discutir os problemas das nossas aldeias sem perceber de que forma as nossas aldeias podem ser uma solução para as nossas cidades”. O país tem de ser feito de equilíbrios e de complementaridades.

Se há alguém que já está a por em prática essa ligação entre as duas realidades é Frederico Lucas, responsável pela organização Novos Povoadores. Nos últimos cinco anos conseguiu apoiar a migração de 150 famílias do litoral – em especial das grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto – para o Interior.

Mas, como se isso não bastasse, tem em lista de espera cerca de 1600 outras famílias que querem definitivamente trocar a cidade pelo campo. O que Frederico Lucas não quer é ajudar a migrar famílias que não tragam consigo um projeto de sustentabilidade económico associado e com viabilidade, porque projetos falidos e causadores de mais desemprego não aproveitam a nenhuma das partes.

O novo rural

A nova forma de ruralidade defendida por Frederico Lucas é aquela que traz consigo uma dose reforçada de inovação e de modernidade. E isso implica, muitas vezes, perder o medo, arriscar, ir a jogo.

Carlos Peixoto, deputado à Assembleia da República, incrédulo, diz que todos os Governos falharam na eterna questão do combate à desertificação. Diz que é urgente passar das palavras aos atos e fomentar uma espécie de pacto de regime para a coesão territorial.

Não acredita nas boas intenções, como a criação recente da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, e desafia o poder político a arquitetar um pacote fiscal “ousado, ou mesmo atrevido” tanto em sede de IRS, como IRC, mas ainda no que respeita ao IMI e ao IMT, de forma a favorecer seriamente as zonas rurais e do Interior em particular.

Augusto Mateus lembra, porém, que nós ainda temos muito medo das soluções que estão à nossa disposição. “Temos medo da mudança”.

Bom, se não mudarmos nada mais não faremos senão engrossar o coro de queixume sobre as desgraças do nosso Interior, das nossas aldeias sem vida, da desertificação, etc. Mas, como diz o antigo ministro da Economia: “Esta iniciativa de juntar mais de 200 pessoas durante várias horas, numa tarde de sábado de Aleluia, na Bendada, pode querer dizer alguma coisa”.

Texto de Vitor Andrade, promotor do debate "O que fazer com o país das aldeias?"

O Último Guardador de Cabras

Wednesday, Mar 30 2016 05:31
Viaja-se na EN18 em direção a Castelo Branco. Nas proximidades de Alpedrinha, de vez em quando, somos surpreendidos por um fato de cabras. Ao escrever a palavra fato, esclareço que se trata de um conjunto de animais caprinos nas encostas da Serra da Gardunha, como aprendíamos na escola primária. Com tantas reformas e contra-reformas no ensino, talvez já não seja necessário saber o que é um cardume, um pombal, uma vara, uma manada…

Numa tarde soalheira de sábado, concluídas algumas diligências, marcamos encontro no território das pastagens das cabras. António Patrício Tinalhas recebe-me com muita cordialidade, tendo o cuidado de desligar o pequeno rádio portátil.

O nosso guardador de cabras tem raízes nos Enxames, mas nasceu na Fatela há sessenta e oito anos.
Cedo lhe colocaram um rebanho para acompanhar, muitas vezes à custa de faltar à escola. Apesar disso, ainda conseguiu exame da 4ª Classe no Fundão.
Na pastorícia andou, até ser incorporado no serviço militar, que iniciou em Leiria, passando por Castelo Branco e Extremoz durante três anos.
Regressado à vida civil, o pai confiou-lhe o rebanho e o trabalho agrícola, estimulando-o com um vencimento. Todavia, com um salário diário de sessenta e cinco escudos (as mulheres ganhavam vinte e cinco), não conseguiu ficar preso às tarefas do campo. Depressa arranjou passador e “saltou” para Toulouse em França.

Durante catorze anos, esteve ali emigrado, começando por trabalhar numa Fábrica de Curtumes, onde as peles de gado caprino chegavam do Norte de África: Argélia, Tunísia e Marrocos. Seguiu-se o desempenho da função de motorista numa empresa de telecomunicações e, por último, a elaboração de componentes automobilísticos.
Só tem a dizer bem dos tempos na França. No entanto, com os filhos em idade escolar, a entrada de Portugal na CEE e a expectativa de condições laborais e salariais idênticas às de França, decidiu regressar ao seu país natal. Hoje sente que se enganou.
Com as economias francesas, comprou uma casa de habitação e terrenos adjacentes, no Vale dos Clérigos, que recuperou com a implantação de pomares. Voltou novamente à pastorícia, tem essa vocação no seu ADN.

Estamos agora no meio da cabrada: “conheço-as como os dedos das minhas mãos, as mais velhas têm todas um nome: amarela, branca, formosa, cornuda, castelhana, mocha…Se me roubarem alguma sei localizá-la em qualquer local”. O tilintar dos chocalhos, património mundial, não pára e o olhar do Cão Nero, raça Serra da Estrela, está sempre atento a qualquer intruso: “É o meu amigo e companheiro nestas andanças.”
Afirma: “a gente arranja amizade com os animais, acompanhamos e lidamos com eles muitas vezes no dia-a-dia. Ás vezes reconheço que sou áspero, não devia sê-lo.” Todas obedecem ao seu “ ai, ai, ai, fora, fora, uá, uá, uá.”
Esclarece-me que guardar cabras é uma ciência em que se está sempre a aprender. A cabra é um animal inteligente, se faz uma asneira e é repreendida fica escaldada, não volta ao mesmo local tão depressa. A cabra berra ao morrer, mas nunca berra se tiver fome. A ovelha já faz o contrário.
Na proteção da natureza, são as melhores roçadoras das nossas florestas contra os fogos, além de não deixarem os folhedos no chão. Observamos alguns espaços onde não passam as cabras e lá estão silvados e arbustos a dificultar as passagens.
A cabra tem sempre tendência a ir para os pontos mais altos, sobe e nunca desce - tivemos essa experiência enquanto se tomava um café no Cerejal.
O nosso Homem, vendo a cabra lá no alto, desabafava: “Se faço contas, esta vida de pastor não compensa, é uma vida de prisão, difícil, não somos senhores do nosso tempo, não podemos ir a um funeral, a um convívio familiar ou de amigos. Aguento mais um ano, sou o último guardador de cabras de Alpedrinha.”

Texto de António Fernandes e fotografia de João Branco

Quanto custa uma migração mal sucedida?

Thursday, Mar 10 2016 12:26
A mensagem é romântica e toca todos os portugueses que são vítimas de stress urbano: "Migrar para o Campo" aparece como um desígnio para os tempos modernos.

Melhorar a informação sobre as oportunidades disponíveis e os riscos inerentes a este processo é a missão do Programa Novos Povoadores.

O território português de baixa densidade tem falta de emprego, consequência de um tecido empresarial pouco inovador. Isso gera desemprego, que antecede o fenómeno do despovoamento.

Inverter este ciclo passa por captar empreendedores capazes de transferir para o território rural as atividades tradicionalmente urbanas de elevado valor acrescentado.

Transformar a lã de ovelha em mochilas chic ou uvas em vinho para comer são exemplos de fórmulas que criam emprego na cadeia produtiva.

Cada família é um caso. A configuração familiar, as competências dos adultos e as vocações dos seus filhos obrigam a uma análise cuidada sobre os melhores destinos rurais para a sua migração.
A ansiedade pela aquisição de nova habitação é emocional e legítima, mas nem sempre racional e correta.

A alergia de um membro da família à vegetação local, a falta de condições para a instalação de uma nova empresa ou a incapacidade de escoar os seus produtos ou serviços, são causas comuns para transformar sonhos em pesadelos.

Não existem estudos sobre os custos material e emocional dessas migrações mal sucedidas.
Mas sabemos que onze das treze famílias que desistiram desse projeto migratório acabaram por se separar.
Para os técnicos do Programa Novos Povoadores não é fácil desaconselhar uma família a migrar. Mas é recorrente: 461 famílias atendidas, 140 desaconselhadas a migrar.

O insucesso é uma parte da realidade. No outro lado da estatística estão 255 famílias aprovadas, e dessas 132 estão instaladas em pequenas vilas do território rural português com o apoio do Programa Novos Povoadores.

É uma gota no oceano. Mas são estas gotas que estão a reconfigurar aquilo a que designamos por campo!

Novos serviços para apoiar a migração

Tuesday, Jan 26 2016 12:00 No seguimento do inquérito aos inscritos no nosso programa no passado mês de Novembro, percepcionámos o interesse generalizado na prestação de serviços personalizados para a identificação de fontes de financiamento (71,1% das respostas), apoio no desenho do negócio (60%) e na identificação de parceiros para a nova atividade económica a desenvolver (57,7%).

Neste sentido, e com a expetativa de responder a essas necessidades, melhorámos a plataforma para o desenho de novos negócios.
Neste momento, as famílias que tenham preenchido com sucesso o questionário de candidatura, cujo link seguiu no email com o assunto ‘Inscrição aceite!’, receberão o acesso gratuito ao sistema de desenho de modelos de negócio.

Após o preenchimento desse questionário, receberão no seu email três quadros: a Tela do Modelo de Negócio; o Desenho da Proposta de Valor; Quadro Marketing Mix.

Com estas tabelas, facilita-se a leitura sobre o posicionamento do novo negócio, as oportunidades e os riscos associados.

Serviços Personalizados

O Programa passará a prestar serviços personalizados às famílias que pretendam instalar-se em territórios que ainda não sejam aderentes.
Até ao momento estavam limitados aos serviços online.

Estes novos serviços a prestar estão disponíveis nos planos “projeto” e “implementação”, cujos custos podem ser consultados na opção Serviços.
Assim, o Programa Novos Povoadores adopta uma política comercial freemium: os serviços online são gratuitos, passando os serviços personalizados a ter um custo.
A elaboração de Planos de Negócio e os serviços de consultoria imprescindíveis à montagem do negócio são elegíveis para co-financiamento através do Vale Empreendedorismo.

Interculturalidade: O fator chave do desenvolvimento

Sunday, Jan 3 2016 10:52


Somos os atores principais das nossas vidas.

A crise dos refugiados não deixa ninguém indiferente.
Tal como na tragédia do Titanic, alguns salva-vidas acolheram apenas metade da sua capacidade, enquanto outros 1514 passageiros morreram congelados ao largo da Terra Nova.

Hoje, 100 anos depois, discutimos o acolhimento daqueles que fogem da guerra.
Somos europeus e vivemos na terra desejada para os sírios. E entre nós, existe quem tenha a ousadia de pensar que deveremos barrar essa entrada, atirando milhões de seres humanos para a morte.

Irónico.
Um continente em envelhecimento entende que não tem espaço para acolher quem nos pede auxilio.

Mais grave.
A História, para quem a conhece, revela que o desenvolvimento nasce na interculturalidade.
Charles Darwin explica que aqueles que melhor se adaptam aos novos contextos são os que têm maior probabilidade de sobrevivência.

A pena de morte foi abolida na Europa - excepção da Ditadura Lukashentina na República da Bielorrússia - mas diversos governos europeus continuam a marginalizar milhões de seres humanos que apelam por auxilio.

Ruralidade com futuro!
Para além do despovoamento, os territórios rurais na Europa têm recursos para acolher novos residentes.
Se esses residentes trouxerem novas competências, poderemos construir uma ruralidade com futuro: mais inclusiva, mais inovadora, mais efectiva.

O desafio está nas mãos daqueles que não se resignam ao papel de figurantes das suas vidas.

Quais as etapas no processo migratório?

Friday, Nov 13 2015 11:19



A migração começa no desejo: a procura de uma vida mais tranquila e equilibrada.
Tempo para si e para os seus, longe do desperdício de tempo e recursos na mobilidade urbana.

Após a Inscrição no nosso programa, tem a possibilidade de realizar um auto-diagnóstico para validar as tarefas já cumpridas desse processo.
Com a aceitação da inscrição, inicia-se a Análise de Perfil.
Receberá um link para um inquérito sobre o enquadramento social: percurso de vida, experiências profissionais e ambições familiares.

Segue-se o desenho do Modelo do Negócio: o apoio ao desenho do negócio a instalar em meio rural.
As Competências, a Experiência, o Capital disponível e os Mercados conhecidos, são os fatores determinantes para o negócio a instalar pela família migrante. Para que tudo corra bem!

Ultrapassado este momento, Visita ao Destino: os territórios que reúnem condições e recursos para o negócio a implementar, compatíveis com o perfil familiar.

Com o negócio e o território definidos, é tempo de testar: Teste de Conceito do Negócio
O produto é aceite pelo mercado? E está disponível para o adquirir pelo valor pretendido? Os parceiros apoiaram a implementação do protótipo?
Ajustamentos ao Modelo de Negócio e implementação.
Toca a fazer as malas: Migração!



Ruralidade Moderna

Monday, Aug 31 2015 08:07
As "cidades do futuro" pretendem ser verdes, sustentáveis, inteligentes e low cost.
Isto já existe. Chama-se "Campo".



As cidades são a imagem do passado, os territórios rurais são espaços do futuro.
O Século XX ficará para a história como o limite na utilização dos recursos naturais.
Primeiro no campo, onde as indústrias altamente poluentes instalaram as suas unidades produtivas, depois as cidades que acolheram milhões de habitantes, sem avaliar a sustentabilidade dos recursos ambientais.

O consumo excessivo de água e a emissão de CO para a atmosfera estão a condenar o ambiente das áreas metropolitanas.
Quem tem condições para migrar para territórios mais saudáveis, acaba por faze-lo.

No Programa Novos Povoadores, o foco está nos serviços dos ecossistemas.
Procuramos oportunidades de negócio que geram valor, riqueza e postos de trabalho, em sintonia com a melhoria das condições desses recursos.
Não é possível mantêr o principio do “mal menor”: polui o ambiente mas cria emprego.
Hoje, é fundamental que crie emprego enquanto despolui o rio.
Não é uma utopia.
Hoje, há quem produza capas para telemóveis a partir dos residuos recolhidos de um rio, e quem constrói casas de madeira dentro de um processo de reflorestação.

A importância de criar valor não substitui a necessária melhoria dos ecossistemas, devido às gerações vindouras.
Precisamos de simbiose entre ambiente e economia, e não de uma relação de concorrência.
A imaginação é o limite.

Mondim de Basto adere ao Programa Novos Povoadores

Wednesday, Aug 12 2015 10:42
A Câmara Municipal formalizou, recentemente, um protocolo para a implementação do Projeto Novos Povoadores, no concelho de Mondim de Basto.

O programa de repovoamento rural Novos Povoadores vai facilitar a implementação ou transferência de projetos empresariais para os territórios rurais, apoiando a migração dos empreendedores e suas famílias.

É um projeto que pretende contribuir para a revitalização deste território rural através do repovoamento com empreendedores capazes de desenvolver economicamente este território com a instalação de pequenas empresas.

É, por isso, um programa dirigido a pessoas e famílias que pretendem deixar as áreas metropolitanas para viverem no interior rural. O programa de repovoamento rural facilitará a um membro da família a criação de uma empresa no território de destino ou a transferência da sua empresa que possua.

Os candidatos a Novos Povoadores beneficiam, através deste programa, de apoio na definição do projeto empresarial a desenvolver; na identificação de projetos semelhantes e visita aos mesmos e na identificação de parceiros e conselheiros para o negócio definido.

O Presidente da Câmara, Humberto Cerqueira, reconhece que o território do concelho de Mondim tem atrativos que lhe permitem competir com as áreas urbanas e onde a tranquilidade e a vida profissional ativa podem coexistir “encontrar forma de combater a diminuição da população a atrair novos habitantes é o maior desafio destes territórios. É um desafio muito exigente e não há uma receita única para este problema, temos de ser capazes de enfrentar novos caminhos e novas soluções”.
Este projeto tem um custo para autarquia de 22.500,00€ (IVA incluído) e prevê instalar cinco famílias até ao final de 2017.

Tecnologia, conectividade e novos modelos de trabalho

Friday, Aug 7 2015 07:00
Parafraseando a publicidade daquela famosa marca de whisky, diria que o trabalho já não é o que era. Dir-me-ão que a mudança é constante e esta frase pode ser dita em qualquer momento histórico, com a mesma validade…Mas a novidade é que a “mudança” acelerou nas últimas décadas e tal é bem visível em quase todos os contextos de trabalho. Da minha parte, em pouco mais de década e meia de vida profissional, já trabalhei em sectores ditos mais conservadores (ex. na banca) e noutros que se catalogarão de inovadores (ex. na área da internet). Em todos assisti, em poucos anos, a transformações radicais nas formas de organização do trabalho e nos outputs desse mesmo trabalho – sempre com base na simplificação e na rapidez. Complementando este meu empirismo, num passado recente tive a oportunidade de ler 2 livros que marcaram de forma vincada o meu olhar sobre estas realidades e me ajudaram a estruturar algum pensamento…e, confesso, algumas convicções.

O primeiro foi o provocador “The 4-Hour Workweek”, livro com um título disruptivo e com um conteúdo que não lhe fica atrás. Timothy Ferriss, o autor, passou mais de cinco anos a aprender as práticas dos que ele designa como «novos ricos», pessoas com estilos de vida profissionais alternativos, que abandonaram os modelos clássicos de trabalho das 9h às 6h, para viver na plenitude tudo o que o dinheiro, as tecnologias e este novo mundo globalizado lhes permite. Estas experiências levaram-no a tornar-se especialista na utilização das novas “moedas” – tempo e mobilidade – para criar um estilo de vida sofisticado, de aprendizagem e desenvolvimento pessoal constante (por curiosidade, entre outras experiências, já foi professor em Princeton, campeão de kickboxing e especialista em tango). Para além deste appeal romântico para todos os que quem querem escapar à pressão do quotidiano, viajar mais e ter rendimentos tranquilos, também traz ensinamentos profissionais e de gestão “out-of-the-box”. Alguns exemplos:

- “gerir através da ausência”, com modelos bem definidos de delegação e autonomia das equipas;

- estruturar regras de tomada de decisão sequenciais, com a “automatização” das sub-partes dos processos;

- optimizar o tempo, cruzando a aplicação da regra de Pareto (80/20) ao dia-a-dia com a escala/ importância de cada projecto a que nos dedicamos;

- cultivar um mind-set de “informação selectiva”, de modo a não sermos submersos pelos muitos canais/ media a que somos expostos (dentro e fora da empresa);

- desenvolver a arte de “bloquear as interrupções”, colocando todo o foco na tarefa-chave.

O segundo foi o “Rework”, um livro de gestão diferente de qualquer outro que tenha lido. Por vezes, parece até advogar a “não gestão”, condenando muitos dos rituais que preenchem o nosso dia-a-dia empresarial. A sua palavra-chave é “simplificar”. Exemplos?

- não perder tempo com business plans ou orçamentos que não servem para quase nada ou estratégias a longo prazo que muito rapidamente ficam desactualizadas;

- não perder tempo com reuniões inúteis, sem agenda ou outputs definidos;

- não crescer, quando se consegue obter sucesso com uma estrutura pequena;

- não perder muito tempo a estudar ou tentar copiar a concorrência e aplicá-lo, antes, a criar produtos ou serviços únicos (com grande engagement dos consumidores);

- criar ofertas simples (mono-produto ou quase) e apostar em vitórias rápidas.

Os autores, Jason Fried e David Hansson são “evangelizadores” genuínos e vivem de acordo com estas máximas na sua empresa Basecamp (ex-37 Signals). Com os seus métodos revolucionários centrados na autonomia, na improvisação e na produtividade individual, são uma lufada de ar fresco no mundo da gestão.

Cada um à sua medida, estes livros refletem um novo paradigma: processos simples, foco no essencial, forte componente tecnológica que permite acelerar e controlar fluxos processuais/ de informação e, claro, uma conectividade constante entre profissionais e equipas – com vista a resultados optimizados.

Acredito pois que, a nível da gestão, três tendências se irão reforçar nos próximos anos:

- Processos de inovação: progressivamente afectuados por equipas multidisciplinares, em conexão constante, dispersas geograficamente, com inputs de clientes finais e parceiros, aproveitando o conhecimento de toda a cadeia de valor;

- Processos de análise e tomada de decisão: com ferramentas cada vez mais poderosas que sintetizem as variáveis-chave e métricas do negócio, permitam definir e analisar cenários, bem como gerir a performance e o risco;

- Processos de controlo: cada vez mais automatizados e em tempo real, com sistemas de indicadores e alertas, que permitirão a quem gere intervir com base na excepção, quando algo não está “conforme” com o processo;

E consequências para o dia-a-dia dos líderes executivos? Para começar, os processos de gestão terão maior celeridade. Dados consolidados em tempo real (big data optimizado por tecnologias de business intelligence e predictive analytics) permitirão tomadas de decisão mais sustentadas em factos e não em assumpções ou intuições. Por outro lado, serão mais colaborativos, com participação de diversos stakeholders (internos e externos) e com necessidade de uma atenção constante ao meio envolvente. A horizontalidade progressiva das organizações já permite uma maior visibilidade dos gestores sobre as diversas operações e reforçará o seu maior foco no engagement dos colaboradores e dos clientes. Vejo, neste contexto, que um CEO assuma, cada vez mais, papéis importantíssimos para os quais terá progressivamente mais tempo: analista e implementador da estratégia, guardião das relações com os stakeholders e sponsor da mudança e da inovação.

Estamos apenas no início…a revolução segue dentro de momentos.

in Revista Human, Carlos Sezões

Incubadora Florestal

Wednesday, Aug 5 2015 08:26 Segundo o estudo da DEMOSPIN, coordenado pelo Prof Eduardo Anselmo de Castro, desde o Séc. XIX que existe em Portugal o “vale demográfico” nos territórios rurais: a população sai para as cidades entre os 20 e 30 anos, para regressar dez anos mais tarde.
É assim há 200 anos.

Fará sentido quebrar esse “vale”, quando essa migração é tão importante para a experiência de vida desses jovens?
Como é que poderemos substituir uma experiência em cidades como Lisboa, Porto, Londres, Paris, Genébra ou Zurich?

Em Vila Pouca de Aguiar está a ser desenvolvida uma incubadora temática para a área florestal: Aguiar Nature
Naquele pequeno espaço, estarão representados os players internacionais dessa fileira, com destaque para produtores florestais, empresas de sistemas de detenção precoce de incêndios, Universidades europeias de Arquitectura ligadas à construção em madeira, para além das empresas da região correlacionadas com este sector.

Uma das contra partidas destas parcerias é a recepção de empreendedores incubados nos centros de desenvolvimento destas empresas, espalhados pela Europa, onde os projectos dos jovens aguiarenses serão analisados e discutidos.

Não sei se esta iniciativa será suficiente para que os jovens do Alto Tâmega optem por se instalar nesta incubadora, em oposição a uma experiência migratória.
Mas a tentativa merece o registo.
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