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Cidades Criativas 3.0

Monday, Sep 20 2010 01:50
O conceito "Cidades Criativas" resultou da emergência das novas tecnologias e de um novo tipo de economia assente na criatividade e inovação.

Constatou-se que certas cidades, mais do que outras, tinham a capacidade de atrair empresas e pessoas criativas e inovadoras. Essa capacidade prendia-se então com um conjunto de condições ambientais gerais que foram descritas sucintamente pelos três T's propostos por Richard Florida, a saber, Talento, Tolerância e Tecnologia.


Neste sentido, uma Cidade Criativa implica uma população residente com um alto nível educacional, boas universidades, uma comunidade diversa, intensa dinâmica cultural, qualidade de vida, vida boémia e as mais avançadas infraestruturas tecnológicas. E, claro está, tudo em escala significativa. Ou seja, o conceito é sobretudo um roteiro que só muito poucas cidades no mundo podem aspirar percorrer no curto prazo.

Esta perspetiva é naturalmente pouco animadora para cidades de média dimensão ou onde faltam algumas das componentes consideradas essenciais. Basta dizer que, em boa verdade, em Portugal não existe nenhuma cidade a que este conceito original se aplique. Nem Lisboa.


Daí que tenham surgido adaptações mais abrangentes. Ou seja, propondo-se uma versão 2.0 destinada a pequenas e médias cidades. Perante a crise geral o sucesso tem sido garantido. Nestes últimos anos Portugal encheu-se de Cidades Criativas. Mas os resultados reais na economia são parcos.


Sobretudo porque se tem confundido o desenvolvimento de uma economia criativa com a criação cultural, em si mesma, que é uma coisa muito diferente. Ou seja, a cultura criativa inicial, assente na economia digital e no design, transformou-se num mero incremento de manifestações culturais, de tipo artístico, normalmente centralizadas pela própria gestão das cidades. Em suma, muitas Câmaras imaginaram que as suas cidades se tornariam criativas pelo simples facto de oferecerem mais espetáculos e exposições.


Em Portugal é aí que estamos. Nunca se inaugurou tanto Museu, tanto Centro Cultural, nunca se viu tanta exposição e tanto concerto. Nunca a criação cultural dependeu tanto dos dinheiros públicos e das decisões de burocratas. Em consequência, nunca a criatividade artística foi tão dependente, tão pouco livre e tão conservadora. E, já agora, nunca se desperdiçou tanto dinheiro necessário para impulsionar uma verdadeira economia criativa.


É por isso que é preciso pensar numa versão 3.0. Que possa aproveitar o modismo, mas num caminho mais promissor.


Deixando de lado a sempiterna questão do ensino - que apesar de muita crítica avulsa tem vindo a melhorar por via do aumento da qualidade e da população estudantil -, é evidente que faltam nas nossas cidades as condições de base para que os jovens possam desenvolver projetos de criatividade e inovação empresarial. Não se trata de mais dinheiro, mas de condições tecnológicas.

Em vez de gastar fundos em mais centros culturais e museus da rolha, as autarquias deviam apostar nos centros de criatividade, através da disponibilização gratuita de espaços para encontro, cooperação e produção. Algo do tipo dos já conhecidos Fab Labs, pequenas fábricas do fazer criativo, ou centros para instalação de pequenas empresas, ateliers e projetos dedicados à criatividade e inovação, como é o caso da LxFactory em Lisboa (ainda que esta de iniciativa privada).


Em particular, os Fab Labs têm-se destacado como um meio de promover a economia criativa. Trata-se de pequenas oficinas com equipamentos de base digital onde qualquer jovem, ou pessoa, pode desenvolver gratuitamente os seus projetos. Neles encontram-se máquinas de impressão, corte, prototipagem, modelação 3D e outras ao serviço da imaginação e da criatividade de cada um. E servem também para encontro, trocas de informação e sinergia, fundamentais para o avanço do conhecimento individual ou de grupos. A interação é aliás a base da evolução.


Assim, a Cidade Criativa 3.0 não é tanto aquela que exibe muita criatividade, mas sim a que gera as condições tecnológicas e ambientais para que a criatividade possa emergir e desenvolver-se.

in Jornal de Negócios, por Leonel Moura

City Marketing por @paulomoreira

Saturday, Sep 18 2010 05:16

Viver no interior não é uma missão impossível

Friday, Sep 17 2010 04:31 Não se assustam com o fecho de escolas, centros de saúde e fábricas. Os casais que trocaram o apartamento na cidade por uma casa no campo têm outros trunfos: são qualificados, empreendedores e não dispensam as novas tecnologias. Lamentam a falta de transportes mas agradecem as estradas sem trânsito. Fomos saber o que os levou a remar contra a maré.

A mudança de António Manuel Venda de Lisboa para Montemor-o-Novo foi obra de Cupido. Foi atrás da Catarina, que já tinha trocado a capital pelo interior do Alentejo. Ana Berliner e o marido, António Monteiro, conheceram-se em Figueira de Castelo Rodrigo, na Guarda, e também acabaram por ficar a viver por lá, longe de Lisboa, onde nasceram. Trocaram as voltas ao êxodo rural e garantem que compensa. Interior é, para eles, sinónimo de qualidade de vida.

in Público

O tronco da azinheira deitado ao chão no terreno ao lado de casa é uma das portas de ligação de António Venda com o resto do mundo. Só ali, em cima do tronco, consegue apanhar rede de telemóvel no sítio onde mora. É de lá que o jornalista e escritor de 42 anos combina entrevistas e planeia negócios. A Internet também ajuda. António dirige uma revista em Lisboa, mas fá-lo online, a cem quilómetros de distância do escritório, a uma hora de caminho. Vai lá pelo menos uma vez por semana, sem pressas, sem horários.

É assim desde que deixou a cidade rumo ao Alentejo, em 2003. Três anos antes, Catarina tinha-se mudado para Montemor, onde abriu uma livraria. A aposta na cidade tinha tudo para dar certo. "Está a uma hora de tudo: da praia, de Lisboa e de Espanha. Além disso, tem uma actividade cultural engraçada", explica Catarina, de 36 anos, que antes morava em Carcavelos e trabalhava em publicidade. Agora trabalha no Centro Coreográfico de Rui Horta, o conhecido coreógrafo que também escolheu a cidade para se instalar.

Mais barato e mais seguro

Por causa da livraria e porque tem raízes familiares em Montemor, o processo de integração foi fácil para Catarina. Com António, não foi bem assim. "Ainda hoje, vamos na rua e ela cumprimenta 20 pessoas, enquanto eu cumprimento uma", diz o jornalista.

Mas os filhos do casal estão perfeitamente integrados. Os três nasceram no hospital de Évora, a meia hora de distância. "É como viver em Cascais e ir ter o filho a Lisboa", brinca Catarina. Os dois mais velhos vão este ano para a escola em Montemor. "O miúdo vai para o futebol e a rapariga escolheu equitação, em vez do ballet", diz o pai. Não faltam distracções para as crianças no concelho. "Pagamos só três euros por mês pela ginástica", conta Catarina.

Ambos concordam que é mais barato viver em Montemor, sobretudo para criar os filhos. E há mais segurança do que nas grandes cidades. "O mais velho vai agora para o primeiro ano. Dentro de pouco tempo já poderá ir sozinho a pé para a biblioteca, ou para a Oficina da Criança, onde tem várias actividades gratuitas", diz a mãe. As despesas do dia-a-dia é que nem por isso são menores. "Temos supermercados como em Lisboa e as mercearias praticam preços altos. Já tivemos uma horta mas está em stand by".

Na vida do casal não há bem o "antes e depois" de Lisboa. Há mais o "antes e depois" dos filhos. "Antes, íamos várias vezes jantar a Lisboa, ao cinema, ao teatro. Como vamos contra o trânsito, é rápido. Agora, vamos menos. Mas se estivéssemos em Lisboa também já não saíamos tanto", admite Catarina.

Mesmo assim, não dispensam algumas fugidas à capital ao fim-de-semana, para mostrar a cidade às crianças. "Acabamos por ver Lisboa de outra maneira. Vivemos a cidade como turistas".

Admitem regressar um dia à capital? António diz que não. Catarina não tem nada contra, mas prefere o sossego do monte alentejano. "O que me aflige mais em Lisboa", explica, "é sair de casa sem respirar ar puro. Saímos de casa para a garagem, vamos no carro com o ar condicionado, entramos no parque de estacionamento e subimos para o escritório. Nem dá para perceber se está frio ou calor".

Mas admite ter saudades dos restaurantes japoneses ou indianos, que ainda não chegaram a Montemor. Onde também não se pode encomendar uma pizza. "Não há take away, ou quando há tem de ser bem pago".

Seduzida pela paisagem

A morar a 380 quilómetros de Lisboa, Ana Berliner sabe que nem todos estão dispostos a pagar o preço da interioridade. "Tem que haver uma grande motivação", diz. Ainda assim, conhece pelo menos seis pessoas que se lançaram numa aventura semelhante à sua.Na aldeia histórica de Castelo Rodrigo (uma das 12 do país), onde mora com António e as duas filhas, não há mais do que dois cafés, uma loja de artesanato, uma igreja e um palácio em ruínas, o Palácio Cristóvão de Moura. "Mas é tudo tão bonito", diz, apontando para a paisagem imensa e verde que vê da janela da sala.

A sede do concelho, Figueira de Castelo Rodrigo, fica a três minutos de carro. "Lá temos todos os serviços básicos: centro de saúde, escolas, bancos, biblioteca, centros desportivos, supermercados", conta. Este ano fecharam três escolas no concelho, mas isso ainda não a preocupa. "Figueira está ao ritmo do país, nem mais nem menos".

"Aqui tenho qualidade de vida", garante a bióloga. Ana e António Monteiro, também biólogo, chegaram em 1995 à região do Baixo Côa, onde estagiaram. "Foi essa a nossa sorte. Éramos estudantes, não tínhamos emprego em Lisboa, só o encontrámos aqui", conta Ana. Na altura, estava a ser criado o Parque Natural do Douro Internacional. António acabou por integrar a equipa do parque como biólogo do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, actividade que mantém.

Foram ficando, ajudaram a fundar a Associação Transumância e Natureza, com trabalho de relevo na criação e alargamento do primeiro parque natural privado do país, a Reserva da Faia Brava, em Figueira. Ambos têm familiares distantes no distrito da Guarda, mas não foi isso que pesou na decisão. "Foi a zona que nos seduziu, e o trabalho", garante Ana. Quando decidiram comprar casa, Castelo Rodrigo estava na lista dos locais preferidos. Porquê? Pela paisagem, pela tranquilidade e pela história que ainda se respira dentro dos muros da aldeia, requalificada com o apoio da União Europeia, no final da década de 90.

"Soubemos que estava uma casa à venda e viemos". Deitaram mãos à obra e reconstruíram a casa e a zona envolvente. Apostaram depois no turismo rural, através da Casa da Cisterna. Nunca pensaram voltar para Lisboa, aonde só vão para resolver problemas. "Ia fazer o quê? Aqui tenho tudo o que preciso". E como matam saudades da família que ficou em Lisboa? "Os telemóveis e a Internet fazem maravilhas", brinca. A videoconferência encurta quilómetros.

Ter carro próprio é fundamental para viver no interior. A zona é servida com "bons acessos", mas "faltam transportes públicos", lamenta a bióloga de 37 anos. Mas agradece as estradas sem o trânsito de Lisboa. Em Castelo Rodrigo moram cerca de 50 pessoas e uma dezena de crianças, que se juntam ao pé do pelourinho assim que espreita o sol. Vão com as bicicletas e sentam-se no chão à conversa, que interrompem para cumprimentar quem passa.

Ninguem morre de fome

"Ao contrário do que acontece em Lisboa, aqui quem tem poucos recursos não passa fome. Há terrenos para cultivar e os vizinhos ajudam", explica. A verdade é que "o custo de vida no interior é muito mais baixo", diz. Em parte, porque "os serviços municipais dão muito apoio". Ao contrário do que é hábito nas grandes cidades, "aqui damos conta do que a câmara faz". A alimentação é mais barata, mas o mesmo não se passa com a habitação - a diferença em relação a Lisboa "não é proporcional", lamenta. Mas há uma vantagem: "Aqui não há tentações".

O concelho de Figueira de Castelo Rodrigo perdeu mais de 800 pessoas nos últimos dez anos - hoje tem perto de 6500 habitantes. Para estancar esta perda, a autarquia decidiu investir, à semelhança do que já fizeram outros municípios espalhados pelo país.

Desde o ano passado, o município apoiou 35 casais com montantes de 750 a mil euros por casal. Às empresas, a autarquia dá mil euros por cada posto de trabalho criado no concelho e 360 euros por cada nova sociedade que ali se instale, entre outros apoios. Em contrapartida, a empresa tem de manter actividade durante pelo menos quatro anos.Se houvesse o mesmo tipo de apoio em Trancoso, a 50 quilómetros de Figueira de Castelo Rodrigo, talvez o negócio de Artur Tavares tivesse dado certo. Ou talvez não. O fotógrafo mudou de Lisboa para Trancoso há quatro anos com a mulher e os quatro gémeos, mas foi "à experiência" porque "não podia correr riscos". Manteve a casa na capital e a loja em Linda-a-Velha. Em Trancoso, abriu duas lojas com serviços de fotografia e clube de vídeo. "Pensei que no interior, onde há menos oferta cultural, o clube de vídeo fosse uma boa aposta. Mas afinal os jovens olhavam para a capa dos filmes e diziam: "Já saquei da Internet"." Artur reconhece que tinha um "preconceito" em relação às condições de vida no interior, que são melhores do que pensava, o que ditou o insucesso do negócio.

"Tinha uma loja na Amadora, onde facturava por dia o que em Trancoso não fazia num mês", conta. O problema é que "às seis da tarde não há ninguém na rua" e o maior fluxo de pessoas só chega à sexta-feira, para o mercado semanal. "Cheguei em Dezembro, e em Fevereiro era raro não passar a semana na loja de Lisboa e regressar a Trancoso ao fim-de-semana", explica.

Ainda assim, admite que "lá tinha mais qualidade de vida". Os filhos estavam inseridos na escola, a família integrou-se. "Em termos profissionais é que não funcionou", lamenta. Teve de voltar para Lisboa, embora mantenha a casa em Trancoso.

São situações como esta que Frederico Lucas, um dos mentores do projecto Novos Povoadores, quer evitar. "Estabelecemos o prazo de um ano para ponderação da mudança, com visitas obrigatórias ao terreno", explica. A iniciativa, que já devia ter arrancado no ano passado, foi adiada para a Primavera de 2011, altura em que as famílias interessadas poderão começar a fixar-se em dez municípios do interior norte.

As três autarquias que inicialmente mostraram interesse no projecto - Évora, Marvão e Idanha-a-Nova - recuaram, alegando falta de verbas. Por cada conjunto de vinte famílias, cada município teria de pagar 73 mil euros aos promotores, que seriam responsáveis pela selecção das famílias, pelo apoio à deslocalização e pela formação em empreendedorismo.

Agora, o projecto vai ganhar novo fôlego com o apoio da Fundação EDP, inserido nas medidas de repovoamento previstas nos estudos de impacto ambiental das barragens que a eléctrica vai construir no Sabor, Tua e Fridão.

Alentejo para sonhadores

Em lista de espera, estão cerca de 350 agregados. Os destinos mais desejados pelas famílias inscritas são Évora, Castelo Branco, Beja, Portalegre, Bragança e Vila Real. "O Alentejo é mais procurado pelos sonhadores. As pessoas que procuram o interior norte têm sobretudo motivações familiares".

No grupo dos "sonhadores" está Ana Pedrosa e o marido, David Salema. Ambos são licenciados em Engenharia do Ambiente. É daí que vem a ligação ao campo e à natureza, já que nenhum tem raízes no interior e sempre viveram em Lisboa. Ainda não sabem para onde querem ir, só sabem que é para o Alentejo. "Não me agrada a vida da cidade. Estou farta do trânsito, de não ter tempo para nada. Quero ter qualidade de vida", desabafa Ana Pedrosa.

O casal, ambos com 35 anos, tem dois filhos pequenos. "Queria criá-los num espaço mais pequeno e saudável". Mesmo com as escolas a fechar em tantos locais do interior? "Vou escolher um sítio onde haja escolas e centros de saúde perto", ressalva. Daqui por dois anos, Ana quer estar fora da capital, de preferência com o apoio da iniciativa Novos Povoadores.

João Faria, que nasceu em Lisboa há 46 anos, também sonha com o Alentejo, mas já definiu o destino - Évora. É lá que quer "começar de novo" com a esposa e, quem sabe, um segundo filho. O destino surgiu com a ideia de abrir um negócio na área da restauração, turismo ou cultura. Mas o projecto está em stand by. Actualmente, João Faria está a desenvolver um projecto na área do marketing digital, que pode desenvolver em Évora. "Desde que tenha uma boa ligação de Internet e um escritório, hoje consegue-se estar perto dos clientes", sublinha.Factores como a segurança, as acessibilidades (a cidade fica a 1h30 de Lisboa, por auto-estrada) e o custo de vida mais baixo foram determinantes na escolha. As ligações familiares e os amigos na cidade alentejana também prometem facilitar o processo de mudança. E se mesmo assim correr mal? "Nunca sabemos o que nos espera. Mas num regresso ao litoral só se for para fora da Grande Lisboa".

No projecto Novos Povoadores, João viu "uma forma de ver o desejo de mudança facilitado". Mas agora prefere acreditar mais em apoios ao nível do empreendedorismo, diferentes dos que estavam pensados inicialmente pelos promotores. "Penso que os mentores do projecto podem e devem investir noutras formas de continuar a ajuda a quem quer mudar, uma vez que não tem sido fácil para eles levar avante o que tinham por base no seu projecto original", afirma. "Quanto a nós, com apoio ou não, a ideia de mudar mantém-se", garante.

João tem uma opinião formada sobre o ordenamento do território nacional. "O país já começa a ter as mesmas possibilidades em cidades e vilas do interior", em comparação com as do litoral, tanto em infra-estruturas como em acessibilidades, refere. Mas isso não chega. "É preciso criar condições a quem queira investir profissionalmente nesses locais", diz. Como? "Apoiando os empreendedores com menos burocracia, fomentando o co-working, continuando a apostar na evolução das tecnologias de informação e criando sinergias entre profissionais com elos comuns para se poderem apoiar mutuamente".

Alqueva, nas terras do Grande Lago

Friday, Sep 17 2010 02:30
Água a rodos, menires e antas milenares, vinhos notáveis, património a cada esquina, paisagem de cortar a respiração e, sobretudo, a vida em câmara lenta. O Alqueva, o maior lago artificial europeu, é um dos segredos mais bem escondidos da Europa, onde os portugueses atentos começam a apostar como destino de férias alternativo.

«ESPEREMOS que não continue a dizer-se daqui a dez anos que o Alqueva tem potencial», diz para princípio quente de conversa Jorge Vieira, 40 anos, director da Herdade do Sobroso. A voz de Jorge é crítica, lúcida, mas ainda apaixonada. Pergunta-se: o que mudou na paisagem, na marca Alqueva, na herdade, neste último ano em que o Alqueva entrou na moda e o Sobroso foi considerado um dos melhores lugares de pernoita da região? «Para já há mais gente, isso nota-se. Mas a procura está mais orientada para a calma do Alentejo e do Sobroso do que para o Alqueva. Tem o potencial de que toda a gente fala mas, tirando casos pontuais, ainda não saiu disso. Por exemplo, há muito pouca oferta de actividades na água, que é o que as pessoas procuram. Vem-se cá uma, duas vezes, e esgota-se o assunto. As actividades são irregulares e a maioria amadoras. Não há praias fluviais ou não passam da declaração de intenções. Os barcos de cruzeiros ou carreiras são escassos. Os percursos são monótonos. O comentário mais comum dos clientes repetentes é que quase nada mudou. No caso dos passeios, poderá repetir-se o percurso com originalidade se se vier numa altura diferente do ano, porque a paisagem muda. De resto, a oferta é pouca e muito concentrada neste período do Verão.»
Pode dar-se o caso de um dia (domingo, 1 de Agosto), no pleno das férias, não haver ninguém disposto a trabalhar. As estruturas não acompanham a vinda das pessoas. E o interesse em desbravar, que é muito. Ouve-se então o insólito. «No último ano, abriu a casa de apoio à barragem com três sanitários. Já agora, o paredão é o lugar mais visitado da parte sul da barragem, junto com a Amieira. A norte é Monsaraz. Mas já fecharam a casa do lado de Portel, mais as estruturas de apoio, o café, a loja de produtos regionais. Durante meses não houve nada e agora abriu-se outra do lado de Moura.»
No Sobroso estão hospedados por estes dias Jorge Megre e Paula Barros, um casal de Braga «em trânsito». Desconheciam a «paisagem deslumbrante» do Grande Lago, onde nada há que incomode o olhar. Na hora da despedida olharão para o Alqueva como uma nova realidade de férias prolongadas. «Viemos nas palavras encantadas de amigos que já tinham repetido. Decidimos experimentar, antes de seguirmos viagem [vindos do Algarve]. Nunca nos tinha ocorrido o Alqueva», dizem. Depois da «estada sublime» estão certos de que bisarão (ou trisarão), apenas com a ressalva de que será «numa altura menos quente, na Páscoa ou no Outono, em que até a forma de dormir muda». Sublinham ainda que as terras do Grande Lago, além de serem magníficas de horizontes, têm repastos de excelência. «Quando viajamos vamos sempre atrás da gastronomia, sobretudo a portuguesa. Esta região puxa muito ao palato», diz Jorge, de mão na barriga. «Depois, julgávamos que era um calor insuportável o dia todo, mas a barragem trouxe noites amenas e brisas apaixonantes.»
De todas as maravilhas possíveis e imaginárias do Alqueva, «a paz» é a eleita. Para os filhos, é igualmente uma oportunidade de conhecerem a História de Portugal ao vivo, «aquilo que o Algarve (soterrado no betão) dificilmente dá à primeira vista». Em três dias fizeram a volta «maravilhada» pelas relíquias de Monsaraz, Mourão e sobretudo a cenográfica Moura, nas palavras de José Saramago «muito mais sala de receber do que lugar de passagem». Lá viram, como recordou o escritor, «o belo portal trilobado da igreja matriz, com o seu arco conopial que lembra o portal de Penamacor, e o cortesão, nada eclesiástico balcão de dossel com os seus colunelos jónicos e ferros batidos». Obra do mestre de pedraria Cristóvão de Almeida que séculos depois continua a encher de majestade o largo da aldeia.
O único contratempo deu-se na saída de domingo, «para um almoço tardio», que por falta de lugares abertos obrigou a bater retirada de regresso ao Sobroso. «Tornou-se literalmente um almoço tardio. Almoçámos às cinco da tarde, graças à simpatia da dona Josefa.» O exemplo dá razão ao empresário hoteleiro, que alerta: «Quem tem negócios devia pensar que os turistas não vêm a horas certas, muito menos numa região onde se defende a marcha lenta e o coma devagar. Vai demorar algum tempo até as pessoas se adaptarem.» Tirando os projectos grandiosos, como o do empresário José Roquette – que vai de vento em popa e já tem uma mão-cheia de buracos de golfe esculpidos no montado da herdade das terras nobres do Roncão d’El Rey (primeira fase do projecto Parque Alqueva com abertura prevista para o primeiro trimestre de 2012, que contempla um hotel de 250 camas, um wine club e um campo de golfe de 18 buracos) –, as vilas e aldeias à volta de Alqueva vivem de negócios familiares e amadores, com o bom e o mau que isso implica. Ou seja, como diz o casal em uníssono, «é preciso usar o potencial». Sobre o Alqueva, Paula ensaia a teoria futurista: «Quem tem poder económico e procura um lugar com qualidade e discrição, encontrou aqui um paraíso – que só não interessa a quem queira fazer coisas mais mediáticas. Olhei para aqueles ciprestes e vi a Toscana. Tem afinidades na ligação da gastronomia com as casas. Tem pelo menos o potencial para ser vendido no mundo por aí. Isso e mais a força da água.»

As aldeias ribeirinhas
Quem salta de aldeia em aldeia, Alqueva, Campinho, Estrela, Luz? na esperança de achar pernoita mais modesta, alternativa aos turismos rurais e hospedarias finas, depressa conclui que é como achar agulha em palheiro. Na Estrela, por exemplo, apontada por todos à uma como das mais belas aldeias da região, um tesouro escondido da ruralidade ribeirinha, há um único endereço para aluguer de ocasião. Chega-se lá de boca em boca, à falta de mapa, placa ou letreiro explicativo. É o senhor Diogo Vitorino, 80 anos estimados e tisnados, à soleira do seu postigo, quem anuncia uma «casita acolá mais abaixo», pertença do senhor Alexandre, onde parece que se alugam quartos ou a casa inteira, conforme as necessidades. Antes de descer à casa debaixo de impiedosa canícula, o melhor ainda é tirar as teimas no restaurante Sabores da Estrela, o inesperado gourmet do outro lado da rua. São horas de descanso, mas a proprietária, Maria José, «moça da terra», saberá informar-nos de vagas.
A casa da Estrela é a morada solitária onde é possível um viajante instalar-se a preços do antigamente, e experimentar os novos prazeres do velho rio Guadiana. Na parede, pode ler-se a recomendação do site www.alquevacasasdecampo.com, um projecto que era para ser plural, mas acabou por ficar restrito a uma casa. Alexandre Firmo, outro homem da terra, pretendia alargar o negócio. A especulação imobiliária e a crise trocaram-lhe as voltas e ficou-se pelo casinhoto na Rua do Meirinho, n.º 16. A casa, porém, é um sortido de encantos. Um piso térreo sem janelas para a frente, de telhado a rasar a cabeça e paredes caiadas a estalar de alto a baixo com a força do calor. Passa-se a porta e desembocamos noutro mundo, um salão de tijoleira fresca, amplo e luminoso, de vista escancarada da barragem no final do alpendre e de um jardim resguardado por um muro e arvoredo de seiva árabe. Pode dormir-se do lado de fora, ao relento, num dossel de palhas sob a lua e a sombra do olival secular. Oitenta euros por noite é quanto vale o remanso em época alta (sessenta euros de Outubro a Maio).
Na aldeia, o Sabores da Estrela é o exemplo de sucesso, invariavelmente cheio, faça chuva ou faça sol. «Temos reservas até Novembro», confessa a proprietária. O achigã frito com migas de tomate e a varanda escandalosa sobre a barragem podem explicar parte do sucesso (em particular nas noites de Lua cheia), mas Maria José sabe que muito do êxito se justifica por haver fraca concorrência. «No perímetro das aldeias ribeirinhas contam-se pelos dedos os restaurantes recomendáveis.» Dos piropos que por ali vão deixando, o mais sonante foi de um casal de espanhóis, visita recente. «Estava tudo como no guia da revista. Não houve publicidade enganosa.»
Nos antípodas da sofisticação está o Barzeco, uma petiscaria rústica nas encostas de Mourão debruçada sobre a esteva e a água onde se come o melhor peixe grelhado do Grande Lago (e se bebe a sangria mais encorpada). Tudo por culpa do amor nos preparos da alcobacense Ana Vinagre, 49 anos, para aqui migrada com o companheiro Zeco, que «frequenta o paraíso há 25 anos». A história do Barzeco, um dos lugares mais carismáticos da barragem, é de final feliz. Mas não teve vida fácil. Ana Vinagre recapitula: «Começou por ser um quiosque de bebidas e sardinhadas (já com as terras alagadas). A Câmara de Mourão levantou logo problemas, mais os ambientalistas e os inspectores. Implicavam com tudo. Nós só alugámos a terra e queríamos fazer coisas. Temos as coisas certinhas, as licenças todas.»
Ana, que «não tem vocação para estar parada», usou a verba do fundo de desemprego e da Segurança Social e «fez-se à vida». Quem for hoje ao Barzeco (só aos fins-de-semana e sem pagamentos com cartão), o mais certo é vê-la entre o assador, o molhe e as mesas dos convivas, numa azáfama de abelha-rainha. No Barzeco tudo é improviso e descontracção, das tábuas de madeiras de cofragem do chão, às regas de aspersão no lugar de ventoinhas de tecto, ou as cabeceiras de camas antigas junto com comedouros e bebedouros e pedras de mós (e pias baptismais) para o momento do digestivo ou da sesta proverbial. Ana é uma contadora de histórias, e das muitas que chegam à mesa a mais insólita é a do casal que ali veio de fim-de-semana, prolongou a estada por 15 dias e acabou por comprar casa no mês seguinte. «O Alqueva tem íman.»
Nas redondezas do monte há eiras ardentes, searas ceifadas e campos de ninguém polvilhados aqui e acolá de antas e menires. O cromeleque do Xerez, trasladado do regolfo do Alqueva para perto do Convento da Orada (aldeia de Telheiro, Monsaraz), será o mais admirável, com os seus cinquenta menires datados de entre o início do quarto e meados do terceiro milénio a.C. Outros monumentos haveria a citar, como o menir da Belhôa, à entrada de São Pedro de Corval, ou o menir do Outeiro, também conhecido por menir no sítio do Penedo Comprido. O menir da Rocha dos Namorados ou a pedra do Casar é a atracção mais cobiçada de Corval. Segundo as leis das lendas, as moças da terra devem lá passar na segunda-feira de Páscoa e, viradas de costas, atirar-lhe uma pedra para cima. Caso a pedra resvale é porque há boda daí a um ano.
Os alojamentos mais adequados nas terras do Grande Lago são os turismos rurais que juntam ao serviço de categoria as habitações genuínas alentejanas. O Monte Branco, da «alentejanesa» (misto de alentejana com inglesa de Hereford) Jane Doody, 64 anos, é talvez o exemplo mais feliz. «O Alqueva, além de trazer noites mais frescas, fez-nos puxar pela cabeça», diz Mrs. Doody, que descobriu Portugal irreversivelmente há 36 anos. As casinhas de traça típica e a atmosfera de hacienda mexicana inspirada em Frida Kahlo fazem do lugar uma das moradas mais cobiçadas dos sopés de Monsaraz. Ao entardecer no monte, seja na piscina ou derramado nas espreguiçadeiras, o viajante enamorado pelos céus altos e os aromas bravios terá um exclusivo de natureza alentejana no esplendor da sua volúpia (do aborrecimento).

A Marina da Amieira
Outro dos casos de sucesso é a Marina da Amieira, endereço do restaurante panorâmico e ancoradouro dos já famosos barcos-casa, que ganharam fama graças ao apresentador Manuel Luís Goucha, um cliente regular do Grande Lago. «É facto que o negócio cresceu. Temos dois negócios: a Amieira Marina, com os barcos-casa, a restauração, e depois temos a Ges-Cruzeiros. Os cruzeiros estão abaixo das expectativas. Em contrapartida, os barcos-casa estão a superar todos os objectivos mais optimistas. No ano passado conseguimos quatrocentas reservas. Tínhamos posto a meta das quinhentas para 2010, tendo em conta que mantemos o número de barcos. Ainda Agosto não tinha começado e já estávamos a oitenta reservas do total do ano passado», diz o administrador Eduardo Lucas.
Comentários menos favoráveis no usufruto das terras do Grande Lago? «Ouve-se muito o lamento da falta de praias. Não é fácil nem barato implementá-las. A erosão continuada poderá vir a criar sedimentos, areia, mas essa demorará muitos anos a fixar-se. Pode colocar-se lá a areia, mas o nível da barragem, se bem que não flutue muito, é variável. Ou seja, aquilo que constitui hoje uma praia, se o nível da água baixar lá se vai a praia. Os espanhóis tentaram em Cheles mas não funcionou. Fazer uma praia fluvial com alterações de nível implica uma actuação permanente. A água sobe e há um lavar da areia, a água desce e não está lá. Não pode ser uma junta de amigos a resolver o problema. É preciso uma autoridade por detrás.»
A queixa mais ouvida por toda a parte é a das querelas entre poderes que limitam a evolução das terras do Alqueva. «Infelizmente tenho de concordar», diz Eduardo Lucas. «Não falamos por nós, que estamos de boas relações com o concelho de Portel, o nosso anfitrião, de quem temos um apoio significativo. A nossa actividade expande-se por todo o lago e aí gostaria que houvesse uma maior colaboração e uma visão das possibilidades que traz esta actividade para cada uma das aldeias. Ou seja, cada entidade envolvida, presidente de junta, câmara, associação? deveria investir no sentido de dar condições. Assegurar bons cais, por exemplo.»
Este ano, o lago passou a ter esses cais em Monsaraz, na Estrela e na Amieira. Mourão e Campinho também melhoraram as estruturas. Prevê-se que em 2011 estejam prontos os de Alqueva e do núcleo da barragem e da aldeia da Luz. Lucas recorda: «Essa falta de condições de acesso pela água é limitativa para todos. Neste momento, para pena nossa, desaconselhamos os nossos clientes a irem à aldeia da Luz, porque o cais não reúne condições de segurança. Ora, é lá que está um dos melhores museus da região. Depois, não é só lá meter um cais. É preciso pensar na recolha de lixo, na informação sobre a aldeia, para que quem chegue pela água saiba o que pode ver. Que leve o cliente a pensar duas vezes, que o seduza. Há evolução, mas achamos que é possível dar mais e melhor.»
Existe uma Associação de Promotores do Alqueva, a APA. No entanto, há uma lacuna de organismos com interesses comuns no lago, além dos negócios. «Em tempos foi criada a Gestalqueva, uma empresa em que o capital está dividido entre a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA) e as câmaras à volta do lago, que com toda a lógica faria a gestão turística, a promoção, que ajudaria as empresas a instalarem-se. A Gestalqueva foi sendo esvaziada de poder. Tal como a EDIA, foi encolhida da sua competência turística. Começou a ser dividida e hoje em dia não se sabe quem está no terreno e pode fazer alguma coisa ou quem tem os meios. Para ter uma ideia: no sentido de promovermos as melhorias dos cais, fizemos uma pergunta elementar à Gestalqueva é às câmaras. Digam-nos de quem são os cais que existem ao longo da barragem, para que possamos dialogar. Acredita que ainda não obtive resposta? A pergunta tem um ano e meio…»
Por outro lado, a Associação dos Interesses Transfronteiriços do Alqueva, da qual fazem parte todos os municípios portugueses e espanhóis, tem um projecto global, com restaurantes, estradas… mas encontra-se igualmente por implementar. «Já viu o desperdício que é o Guadiana [o barco de cruzeiros], que leva 120 pessoas de cada vez e que podia atracar nos cais dessas aldeias sem ser só para ver as vistas? Ao fim-de-semana transportamos facilmente quinhentas pessoas. Podia haver uma rota gastronómica nas aldeias, ou de vinhos. O potencial continua em aberto», desabafa Lucas. «O turismo fluvial é anual, não se limita a um par de estações. Essa é outra das grandes mais-valias», resume.
A Amieira Marina aumentou entretanto as suas parcerias com a Livre de Amarras, no sentido de implantar a vela e uma cultura náutica inexistente. Fez ainda uma parceria com a Brake, para ocupação de tempos livres, com moto-4, slide, rappel o geocatching. Criou também, com a Babika, uma nova parceria na área do speedboat, da banana e da bóia rebocada. Por último, a parceria com a Sudeurosky, uma empresa já estabelecida em Portugal, encontrou na Amieira as condições ideais para poder evoluir. Trata-se de uma empresa que faz estágios de esqui, wakeboard e babyski (para crianças a partir dos 4 anos).

Polémica com as águas de Espanha
Desde o fim de 2008 que foi proibida a navegação pelos espanhóis na parte espanhola do Guadiana internacional, acima da vila de Monsaraz. «Desconhecíamos a situação caricata até termos dois clientes multados. Verificámos que tinham saído normas internas da Confederação Hidrográfica do Guadiana que proibiam a navegação e tentámos o contacto, mas fomos logo alertados que de nada adiantava. Era cumprir e calar. Isto impede obviamente a atracagem no lado espanhol, o que torna a situação ridícula, pois os espanhóis, mais avançados do que nós, anteciparam-se e construíram logo cais em Cheles, em Vilarreal, em Vilanueva del Fresno.» Agora esses cais são ilhas. Os espanhóis (como foi dito à imprensa espanhola pelo próprio alcaide Angel Garcia) teriam todo o interesse em ter lá portugueses. Afinal os clientes vão almoçar, às compras? Graças àquela lei, os clientes deixaram de ir ou vão por sua conta e risco.
Quem não arrisca é a Gesalqueva. «Com um barco de cruzeiro carregado de centenas de pessoas não vamos arriscar-nos a um incidente internacional. Se a questão é a segurança, basta que façam como nós fizemos: colocámos bóias nas zonas perigosas. Não há nenhum registo de acidente. Se a questão tem que ver com Olivença ou não, desconheço. Se tiver é caricata e constrangedora. Tanto mais que estivemos presentes lado a lado na última Bolsa de Turismo de Lisboa, com os espanhóis a promoverem o Alqueva com grande pompa, até mais do que nós, sendo que a nossa área navegável é muito maior. Abordámo-los lá e os próprios dinamizadores desconheciam o que estava a passar-se e as normas em vigor.»

As barcas da fantasia
Mário Ramalho, 40 anos, oleiro de ofício em São Pedro de Corval, marinheiro de ocasião, é um dos raros barqueiros que se faz solitariamente às águas do Alqueva para «passeios turísticos e piscatórios». Este é o terceiro Verão na faina e «a coisa tem vindo a ganhar forma», diz à NS? no ancoradouro de Monsaraz, onde estaciona o barco. Das 10h00 às 18h00, todos os sábados e domingos, a barca do Alqueva Cruzeiro não pára. De semana, abranda o movimento, mas «felizmente roda». O oleiro-marinheiro lamenta apenas as restrições «absurdas» nas águas espanholas, a falta de praias ou que não possam fazer-se refeições a bordo, e que haja magra oferta nas aldeias. «Se não se trouxer o farnel passa-se fome.» Depois, frisa, «é uma pena ter-se esta água toda e não poder ficar aqui a dormir e a desfrutar. O turismo deve ser controlado para não abandalhar, mas há coisas que devem fazer-se. Parques de campismo, por exemplo, agora até se fazem ecológicos.»
Enquanto falamos com os pés a dar e dar na borda da água tépida chegam levas de gente como os chineses Emi e as suas duas filhas sino-alentejanas que chamam ao Alqueva «bom bom»; um jovem casal nortenho em disponibilidade amorosa em fuga «ao crowd do litoral»; pescadores de achigãs, o peixe mais estimado da barragem; e um paradigmático elenco de Moura que arma o toldo, dispõe o recheio de enchidos da marmita e ajunta-se numa animada rodinha para um piquenique sobre as urzes bravas e o cascalho.
«Tiraram-nos a praia da Carraça. Temos de nos amanhar com o que há», diz, jocoso, o chefe da casa. E a provar de que «não se está nada mal» arreia o calção e atira-se em mergulho encarpado (de tanga cintada) às águas mornas, mansas e desertas da barragem.
Passa então no molhe Fernando Nunes de Carvalho, 63 anos, assíduo da barragem todos os fins-de-semana e «alquevista» imparável. «Toda a gente dizia que isto era uma asneira. Agora é o segredo mais bem escondido da Europa», proclama alto e bom som, antes de soltar amarras. Fernando faz questão de nos levar a bordo do seu barco SunDecker, para desvendar o antes e o depois, e os prós e os contras do Grande Lago – incluindo nos prós o facto de não haver limite de barcos, excepto no tamanho, sete metros de calado. Fernando é do tempo em que se fazia o Alqueva do Guadiana a cavalo e se atravessava o rio a pé em anos de seca. Participou na «Despedida do Guadiana», um raide organizado por José Megre, o falecido viajante das setenta partidas. «Era uma maravilha, mas não tenho saudades. Era outra coisa. Agora faço coisas que nunca faria. Como levar os meus netos a ver ilhas desertas ou grutas cheias de água que antes eram abrigos de pastores e de que já ninguém conta a história. Em Portugal há um par de lugares assim. O outro é a barragem de Moncorvo, no rio Sabor. Digam-me um lugar no mundo onde se pode encostar o barco e fazer um piquenique à sombra de uma oliveira ou andar de porto em porto a fazer rotas de castelos milenares?»



Saramago e o Alqueva

«Do morro fortificado de Monsaraz desceu à planície. Isto é como estar fora do mundo. Os leitos das ribeiras são correntes de pedras requeimadas de sol, chega-se a duvidar que alguma vez levem água, tão longe ela está neste momento, sequer, de simples promessa. Por este andar, o viajante, se o espremem, não deita gota. Vai assim, outra vez entorpecido, quase ao diabo dando o viajar, quando de repente lhe aparece um rio. (?) Por sim, por não, consulta o mapa, a ver se nestas latitudes se assinala curso de água permanente. Cá está, o Guadiana! Era o Guadiana, aquele mesmo que bravio se lhe tinha mostrado em Juromenha e que depois abandonara. Amável Guadiana, Guadiana delicioso, rio que do paraíso nasces! Que faria qualquer viajante, que fez este? No primeiro sítio onde da estrada facilmente se chega ao rio, desceu, num resguardo se despiu e em dois tempos estava na água clara e fria, parece impossível que exista uma temperatura assim. Por mais tempo do que à viagem convinha esteve refocilando na límpida corrente, nadando entre as fulgurações que o sol chispava na fluvial toalha, tão feliz o viajante, tão contentes o Sol e o rio, que eram três num prazer só.»
in Viagem a Portugal («A grande e ardente terra de Alentejo»)



Pedaço de história

A vila de Monsaraz está implantada num esporão rochoso, de onde se avista uma paisagem a perder de vista. A origem do nome é desconhecida, mas mon-xarás, ou «monte-xaras» (monte das estevas) é uma imagem poética adequada à história e encantos do lugar. Terra milenar, de romanos e árabes, tornou-se altiva pela fronteira. Em 1157, Geraldo Sem Pavor, conquistador de Évora, tomou-a de assalto aos mouros, que logo a recuperaram. Só em 1232 Monsaraz passou a fazer parte do reino de Portugal, graças aos cavaleiros templários, futuros senhores da vila. D. Afonso III atribuiu-lhe a primeira carta de foral, onde se estabeleceram os limites do primitivo termo medieval bem como das terras reguengas, isto é, as que pertenciam ao rei – daí o nome da terra vizinha, Reguengos de Monsaraz.



Antes e depois da barragem

O Guadiana encontrou à passagem pela serra de Portel um dos seus maiores obstáculos. Foi neste ponto de contacto que o maciço rochoso mais resistiu ao ímpeto do rio, resultando dessa luta titânica uma cicatriz geológica, aberta em vale profundo. Este acidente natural permitiu viabilizar a construção de uma barragem, denominada de Alqueva, por deferência toponímica à aldeia mais próxima. Os primeiros estudos para construir uma grande obra hidráulica que represasse as águas do Guadiana datam dos anos cinquenta do século XX. Uma tal obra permitiria alimentar o chamado Plano de Rega para o Alentejo, condição fulcral para contrariar a desertificação e o subdesenvolvimento económico da região. Só meio século mais tarde nasceria o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, concluindo-se o corpo principal da barragem em Janeiro de 2002. O paredão, com uma altura de 96 metros, formou um regolfo de 250 quilómetros quadrados, sendo por isso considerado o maior lago artificial da Europa. Entre os inúmeros aproveitamentos do novo caudal de água destacam-se o Sistema Global de Rega, que irrigará 115 mil hectares de terra através de dois mil quilómetros de condutas, e a produção de energia eléctrica, cuja potência permitirá cobrir as necessidades de consumo de todo o distrito de Beja. Junta-se a este potencial a regularização do Guadiana, o abastecimento público de água e a potencialização de expectativas empresariais, sobretudo na área do turismo, em que por agora se focam todas as atenções.



Parque Alqueva

Reconhecido como projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN), o complexo turístico integrado no Parque Alqueva será constituído por três herdades situadas entre Reguengos de Monsaraz e a albufeira de Alqueva, representando, na primeira fase do projecto, um investimento total na ordem dos cinquenta milhões de euros. O Parque Alqueva vai ser construído ao longo das próximas décadas numa área de 2074 hectares, no concelho de Reguengos de Monsaraz, pela Sociedade Alentejana de Investimentos e Participações (SAIP), liderada por José Roquette. O Parque Alqueva, um investimento de cerca de mil milhões de euros, foi o primeiro dos três empreendimentos turísticos projectados para o concelho de Reguengos de Monsaraz a iniciar as obras. A Herdade do Barrocal, a cargo do grupo Aquapura Alentejo, com custos estimados em 140 milhões de euros, e o Vila Lago Monsaraz – Golf & Nautic Resort, da Aprigius – Companhia de Investimentos Comerciais, prevê um investimento total de 170 milhões de euros.



Entrevista
Sofia Ginestal Machado

Sobroso: um caso de estudo

Sofia Ginestal Machado é a embaixatriz da Herdade do Sobroso, uma referência no turismo do Alqueva, em Marmelar, no limite sudeste das terras do Grande Lago. Aqui podem fazer-se winetours, um giro desde a poda à vindima (procurado, sobretudo, a partir de meados de Agosto). Há visitas guiadas à adega que culminam com uma prova simples ou servida de queijos e enchidos da região. De resto, é uma paisagem sublime de quase dois quilómetros lineares defronte do Guadiana, com a herdade aos pés da barragem. Os visitantes podem instalar-se no edifício principal, na Casa da Quinta, composta de cinco quartos duplos, ou numa das outras tantas casinhas geminadas, viradas para a vinha e o montado. Faz-se tudo: passeio de caiaque, bicicleta, caça e pesca. Mas o predicado mais cobiçado do Sobroso, e que traz clientela de toda a Península Ibérica, é a cozinha inspirada da «chefa» Josefa. O cardápio contempla javali no forno com migas de espargos, sopa de cação, açorda de tomate e coentros ou a cobiçadíssima galinha do campo com cogumelos. O vinho é o exclusivo da casa, e ainda bem.

Podemos dizer que o Alqueva já é uma alternativa de férias para os portugueses?
Sim, é uma região fantástica com um grande potencial turístico. Barragem, desportos náuticos, boa gastronomia, bons vinhos, sol durante todo o ano, excelentes acessos, relativamente próximo de dois aeroportos internacionais (a 1h30 de distância).

Trata-se de uma alternativa só para uns happy few ou tem condições para oferecer turismo «para todas as bolsas»?
Julgo ser uma alternativa para todas as bolsas, nem que seja para uma escapadela de dois dias.

Que argumentos têm para convencer um veraneante a ir para o Alqueva em Agosto?
Oferecemos tranquilidade, um serviço personalizado, um encontro com os sabores tradicionais do Alentejo e com o mundo fascinante dos vinhos, e praticamente uma herdade com 1600 hectares em exclusivo para o cliente, uma vez que a nossa lotação máxima é de pouco mais de vinte pessoas.

O vosso core business é o turismo enológico?
As três principais valências da Herdade do Sobroso são, por esta ordem: produção de vinhos (tinto/branco/rosé), das gamas Herdade do Sobroso e Sobro; country house e turismo cinegético.

Qual a taxa de ocupação da herdade em época alta?
Cerca de noventa por cento.

in NS

Cavaco defende programa de repovoamento rural

Monday, Sep 13 2010 06:12
O Presidente da República defende que Portugal devia lançar um programa de repovoamento rural, como forma de combate ao despovoamento do país. Aníbal Cavaco Silva disse-o de uma forma clara a uma plateia de personalidades regionais e nacionais que se juntou numa sessão pública em Castelo Branco e que serviu para fazer o balanço final do Roteiro das Comunidades Locais Inovadoras. Durante três dias, o Chefe de Estado efectuou um périplo pela região albicastrense tendo concluído que vale a pena continuar a apostar nas zonas periféricas, porque, como disse, “aqui as pessoas não desistem das suas terras, acreditam que há futuro e possuem uma energia renovadora que resiste à adversidade, sentem que têm o dever de agir e estão abertas à cooperação”.

Daí que Cavaco Silva entenda ser urgente tentar inverter a questão do despovoamento, fundamental para ajudar também o país “no grande desafio da recuperação económica e da criação de empregos, onde temos de ser capazes de fazer melhor do que as previsões apontam”. Para além do despovoamento, apontou o endividamento externo e a fraca produtividade como outros dos factores de risco para o futuro de Portugal.

Alertando para “o potencial inovador que existe em cada comunidade” procurou elevar a auto-estima regional, apontando exemplos, dos serviços aos produtos, chegando a dizer que “as potencialidades locais fazem avançar o país”. No entanto, avisa que “é preciso mostrar qualidade em tudo o que se faz” e apostar em Pequenas e Médias Empresas competitivas que “de forma inteligente consigam fazer a ponte entre a tradição e a inovação”.

Aqui, Cavaco Silva considera que a mão do poder autárquico é essencial, criando condições às empresas e favorecendo o empreendedorismo dos jovens. “Mobilizar parcerias, ajudando as empresas a ganhar dimensão e inovar fazendo diferente mas com qualidade e eficiência é o caminho”, disse o Presidente. Este Roteiro pela região de Castelo Branco serviu, por isso, para apontar os bons exemplos e para mostrar ao país que “é possível ser competitivo no Interior”.

Morão realça auto-estima

O presidente da Câmara de Castelo Branco, na mesma sessão, agradeceu a visita presidencial e o empurrão que a mesma significa para esta zona do país. Joaquim Morão lembrou que “temos coisas muito boas e temos autarcas que se esforçam diariamente para levar por diante estas terras”. Daí que realce a auto-estima e o ânimo deixado por Cavaco Silva “numa época que não é fácil”, destacando que “a sua presença aqui dá-nos ainda mais força para lutarmos por um futuro melhor para todos”.

in Reconquista, José Júlio Cruz

COWORK: Muitos profissionais freelancers queixam-se que trabalhar em casa provoca isolamento

Sunday, Sep 5 2010 02:22

Começou com Uma Povoação

Saturday, Sep 4 2010 03:49

Enquanto muitas empresas centram as suas atenções nas acessíveis áreas urbanas da Índia, a ITC apercebeu-se do potencial dos mercados periféricos das vilas rurais e encontrou uma forma de as ligar através da tecnologia. De acordo com o pensamento convencional, os agricultores são um mercado pouco atractivo, com fracas infra-estruturas, longas cadeias de distribuição e rendimentos relativamente baixos. Mas a ITC apercebeu-se da oportunidade de usar avançada tecnologia de comunicações para ligar os agricultores indianos aos mercados globais. Criou centros electrónicos, cada um deles patrocinado por um camponês local, para servir varias aldeias em redor.

Estes agricultores, antes dependentes dos negociantes de cereais locais, podem agora ver como estão a ser negociadas as sementes de soja no mercado de futuros do Chicago Board of Trade através da rede e-Choupal da ITC, baseada em computadores pessoais e numa rede de satélites.

Os agricultores também usam o mesmo sistema para o comercio electrónico. Estes consumidores rurais eram ignorados pela maioria das empresas, mas através de um olhar atento para este mercado e desenvolvendo soluções criativas, a ITC criou uma prospera redeª. Em 2003, a ITC já tinha mais de três milhões de agricultores ligados através de mais de 5 mil centros electrónicos, com transacções de cem milhões de dólares. Era uma oportunidade importante existente no interior, muito longe dos centros urbanos que captavam toda a atenção.

a) C.K. Prahalad, The fortune at the bottom of the pyramid (upper saddle river, NJ: Wharton School Publishing 2004.

in Visão Periférica, George S. Day e Paul J. H. Schoemaker, edição Havard Business School Press

Simon Sinek: How great leaders inspire action

Tuesday, Aug 31 2010 08:34

"Já tivemos maternidade. Agora, nem uma farmácia"

Saturday, Aug 28 2010 09:38 Vivem longe de quase tudo, e o pouco que têm vai desaparecendo - urgências, atendimento 24 horas, médicos na consulta, enfermeiro a tempo inteiro. E são cada vez maiores as dificuldades destas populações no acesso à saúde. São as juntas de freguesia que tentam minorar os prejuízos, mas o sucesso é relativo. E só ficam os velhos...

Idalina Amiguinho, 63 anos, desfila um rol de queixas, que é preciso interromper para perceber do que fala. Mora em Santa Eulália, uma aldeia do interior do distrito de Portalegre. Mulher com "vários problemas de saúde e, até, da doença dos nervos", não se conforma com o fecho da Farmácia Cruz, há dois anos. "Estava afónica, por acaso até tinha consulta marcada, a médica, a Dra. Alexandra, está cá há seis meses - esteve cá uma espanhola, a Rebeca, engravidou e abalou -, passou os medicamentos para tomar às 16.00. Tive de estar à espera da minha filha para ir à farmácia de Arronches, sempre fica um bocadinho mais perto que Elvas [a 15 quilómetros, menos três]. O meu marido tem um carro velhinho comprado em segunda mão, mas é muito doente, tem colesterol... precisamos de muitos medicamentos, e são caros."
A Farmácia Cruz mudou-se para Elvas, deixando de ser o ponto de atendi-mento/triagem da aldeia. Beneficiou da portaria n.º 1430, de 2 de Novembro de 2007, que permite a deslocalização das farmácias dentro do concelho, sem que a transferência esteja sujeita a uma avaliação,por peritos, às necessidades da população.
"O problema dos medicamentos é importante, mas uma farmácia é mais do que isso. A maior parte das vezes, um técnico de farmácia é um psicólogo, um conselheiro. As pessoas sentem-se bem em lá ir. Enquanto esperam para ser atendidas, vão conversando. O nosso maior problema é a solidão: 60% da população tem mais de 65 anos e passa o ano inteiro só", lamenta Cláudio Carapuça, o presidente da Junta de Freguesia de Santa Eulália. Muitos dos seus eleitores não têm a 4.ª classe para poderem tirar a carta de condução, e muito menos dinheiro para comprar o carro.
"Ainda há dias tive de chamar um táxi para ir a Elvas; aqui não há bombeiros para pedir uma ambulância. Tem de ser, sou solteiro", desabafa José Francisco, 78 anos, agricultor, "trabalhava nas hortas". São pelo menos 45 euros, dinheiro que depois é reembolsado pelo Estado. "A minha reforma é de pouco mais de 300 euros... ", explica. E sempre que o médico de família lhe receita medicamentos, vai directo à casa do farmacêutico, que mantém a residência em Santa Eulália. "Entrego à mulher, e ele traz os remédios no dia seguinte." "Olhe, isso é que não faço", protesta Idalina Amiguinho. "Ele pintou-nos, e eu não vou lá."
"Diziam que a farmácia só ia fechar uns dias, mas fechou e nunca mais abriu. Agora, faz negócio em Elvas e aqui. Eu também levo às receitas à mulher dele." E, assim, José Charruadas, 78 anos, compensa a falta que lhe faz a farmácia. Charruadas também é solteiro. "Fui criado além, nos montes. Não havia mulheres", brinca.
Desenrolam o novelo das críticas no Largo de José da Silva Picão, "autor glorioso do livro Através dos Campos", à entrada da vila, junto ao cruzamento em que os semáforos são controlados por energia solar. Um banco à sombra serve de poiso a quatro reformados. Idalina passou e parou.
"Não se pode estar em casa com este calor", justificam. É a farmácia que fechou, a antiga estação de correios a cair (passaram para um "cubículo" da Junta), o médico que só vai à aldeia duas vezes por semana. "E se estiver doente ou de férias, ninguém o substitui", protestam. "Já nem o pão aqui é feito!"
"Andava aí um bocado manhoso. Tive de ir de táxi para Elvas, porque nunca sabemos se nos despachamos a tempo de apanhar a camioneta. Fizeram-me exames, meteram-me soro e não encontraram nada, mas o que é certo é que andava mal", conta Miguel Carpinteiro, 65 anos, ex-cabouqueiro. Os dois filhos deixaram a aldeia mal se tornaram adultos. "Não há trabalho...", justifica.
E quem não vai a casa do técnico de farmácia, tem a junta de freguesia como alternativa, entre as 07.00 e as 13.00, horário contínuo. Na volta, é uma carrinha que distribui os remédios pelos doentes, mas Cláudio Carapuça, o presidente, faz coro com os que protestam contra o farmacêutico, e não se abastece na Farmácia Cruz, em Elvas. "Não tenho de levar a mal, é um negócio, mas como presidente da junta, não posso concordar", justifica o jovem autarca. Não fala sentado à secretária, mas na igreja, e como servente de pedreiro; com Adriano Carlos, 50 anos, o secretário, e Paulo Carpinteiro, 44 anos, o tesoureiro, colocam um altar para a imagem de Santa Eulália.
Foi o "avó da Fatinha" que instalou a farmácia na freguesia, "há muitos anos. A população sempre se lembra da sua existência, mas é pequena a lista de potenciais clientes: 1100 eleitores nas últimas eleições. Cláudio Carapuça acredita que o Censos 2011 indicará mais habitantes do que há dez anos. A Câmara Municipal de Évora disponibiliza lotes de terreno para construção, a 5000 euros, o que tem levado pessoas para as zonas mais despovoadas. Muitos têm os empregos na cidade.
Já Juliana Sousa, 17 anos, tem poucas hipóteses de sair da aldeia. Não tem meios para se deslocar à cidade; tem família para ajudar. Sentada no degrau da porta da casa, com a avó Maria do Carmo Bolaixo, 85 anos, lamenta: "Se tivesse um emprego efectivo, ficava aqui; gosto disto. Mas está tudo a sair, cada vez há menos coisas para fazer. Estivemos mais de três meses sem médica. E se a minha avó piorava, era à farmácia que ia medir a tensão quando não havia enfermeiro." É um dos poucos rostos jovens da aldeia. Completou o 9.º ano em Vila Boim - na freguesia deixou de haver o 7.º ano -, e a única coisa que conseguiu foi seis meses de trabalho, através do programa Ocupação Municipal Tempos Livres, a ganhar 250 euros por mês. Não tirou a roupa do serviço, e percebe-se que esteve a pintar. "Faço tudo o que for preciso: tirar erva, caiar, tudo..."
Também a população de Colos protesta por a Farmácia Colense, Odemira (Beja), ter mudado para Vila Nova de Mil Fontes. E a história que contam já não é nova. Um estabelecimento secular, tão antigo que deu o nome à rua - Rua da Farmácia -, servia as freguesias em redor. Era um apoio; o problema foi ser vendida a alguém que não "sente aquele amor" pela terra.
"Era a farmácia que a gente aqui queria. Como era dantes. Tenho 64 anos, e já existia quando eu era nova. A minha mãe tem 95 anos e diz que toda a vida houve aqui farmácia. Era do senhor Militão Camacho, sabia muito, fazia medicamentos e tudo. Ele pôs--se muito velhote, e ficou um sobrinho a trabalhar. Depois abalou, e foi vendida a uma senhora que não era daqui. Há tanto tempo que se ouvia dizer que ela abalava, mas custava-me a acreditar... Agora, vai mesmo acabar", conta Joana Correia.
Chegou a trabalhar na casa da proprietária da farmácia, e também por isso lhe dá mais pena. A unidade ainda abre de manhã, mas é só até o processo de transferência estar concluído. "Há aqui muita gente e a escola veio dar vida a isto. Há menos crianças, mas ainda há muitos jovens. Temos centro de saúde (extensão), a Cruz Vermelha, os Correios, a Caixa Geral de Depósitos, a GNR... Temos tudo, é uma pena", lamenta Joana. E têm uma parafarmácia, do proprietário da farmácia de Odeceixe, que se disponibiliza a trazer os medicamentos, e sem pagamento de porte. E um número de telefone para as emergências. "Ah tem? olhe, não sabia. Mas fica à saída da vila; é longe, e não é a mesma coisa", conclui a mulher.
Em São Barnabé, Almodôvar, distrito de Beja, não se protesta contra o fecho da farmácia, a diminuição das horas de atendimento do médico ou o encerramento das urgências. "Nunca tivemos nada disso. Sentimos a falta... mas o que é que quer? O pior foi quando fechou a escola; foi uma escuridão". Lamentações de Lisete Maria, 73 anos. Sentada do lado de fora da taberna local, acompanha Maria Catarina, 78 anos, mais nos silêncios do que nas palavras. Fazem tempo para "comer qualquer coisinha", o jantar.
São poucos os habitantes, na maioria velhos. E só no Verão, com a vinda dos emigrantes, há algum movimento nas ruas. Um médico desloca-se uma vez por semana à Casa do Povo - "é a Dra. Maria, veio da Holanda, que aqui não há doutores, mas quando for embora, lá voltamos a estar à espera". A visita do enfermeiro também é espaçada. Pede-se aos vizinhos para "aviar as receitas", ou então entregam-se na junta de freguesia. E nem os incentivos à natalidade, entre 750 euros (primeiro filho) e 1750 (terceiro e seguintes), fazem inverter a tendência de envelhecimento; há uma criança...
"Sou dos mais novos, mas quem é que pode aqui viver? Não há emprego. E até nos tiraram a aguardente de medronho. Sou mecânico, mas acabo por fazer um pouco de tudo: monto bombas, arranjo motores de tirar água, o que aparecer", explica José Reis, 54 anos. É, também, dos poucos que tem carro. "Pedem-me para que lhes leve as receitas quando vou à cidade; faço-lhes os recados. Tem de ser", acrescenta.
São Barnabé fica a 29 quilómetros de Almodôvar, a mais distante das oito freguesias do concelho. E são 29 quilómetros às curvas pela serra do Caldeirão, estrada estreita e a descer até à vila. As urgências (Serviço de Atendimento Complementar) em Almodôvar encerraram, o que quer dizer que são mais 24 quilómetros até à unidade de Castro Verde. É, seguramente, mais de uma hora de caminho, a prova de que a distância ao quilómetro não é igual para todos.
"A nossa preocupação é a falta de pessoal, não chegamos para as necessidades da população. Se há uma urgência, temos de ir para Castro Verde, sem esquecer o regresso. Desde que as urgências fecharam, que se torna complicado gerir os funcionários. Além disso, somos a reserva do INEM, mas não foi fornecida viatura, e eles têm de levar uma ambulância nossa", conta José Marques, 56 anos, 2.º comandante, dirigente dos Bombeiros Voluntários de Almodôvar.
Em tempo de férias, aumenta a população local. E as preocupações. E, além dos motoristas e técnicos para dar assistência em cuidados de saúde, há o combate aos incêndios. A corporação tem 24 funcionários (condutores, socorristas, administrativos, atendimento), além dos voluntários. "Claro que não posso concordar que fechem as urgências. Os acidentes e as doenças não escolhem as horas, e uma boa parte dos habitantes não tem meios próprios para se deslocarem", protesta.
"E os transportes são maus. O meu pai tem 89 anos e tem de ir à consulta a Beja. Como é que ele vai de camioneta para Beja?! Antigamente, ainda se deslocava de carroça e burro, mas agora nem isso. As camionetas são poucas e é preciso apanhar várias. Estou aposentada e gostava de dar mais assistência, mas moro em Portimão e não conduzo. Nem sei como é que poderia chegar aqui de transportes públicos. Felizmente, arranjou-se uma equipa para lhes levar a comidinha. Mas as pessoas aqui vivem muito isoladas", diz Maria do Carmo Martins, 59 anos, ex-professora do ensino básico. E sublinha: "As pessoas têm de vir a Almodôvar para ver como as coisas ainda funcionam."
A falta de recursos, em especial no acesso à saúde, levaram Luís Monteiro, 42 anos, a voltar a fazer contas à vida. Pequeno empresário na área dos mármores, pensava deixar definitivamente a Bélgica, onde viveu 20 anos, para se fixar em Poiares, a sua terra. Mas esta, em vez de progredir, só "tem regredido". "A Farmácia Portugal fechou há dois anos. Temos de ir a Peso da Régua ou a Vila Real comprar os medicamentos. O hospital é o de Peso da Régua; uma estrada estreita com curvas e inclinada. No Inverno, e com gelo, é um perigo. Agora querem fechar a escola. Tenho um filho de seis anos e uma filha de 14, e não vejo aqui futuro para eles. Qualquer dia é o centro de saúde que fecha. Que futuro lhes vou dar? Não venho para cá e vou vender o que aqui tenho", argumenta.
A Farmácia Portugal mudou-se há ano e meio para Vila Real, e é uma funcionária da junta de freguesia que recebe as receitas. "É um serviço que prestamos aos utentes, sobretudo às pessoas de idade. Os medicamentos chegam no dia seguinte, e se for urgente, ligo e vêm no próprio dia", conta Conceição Rodrigues, 42 anos, que muitas vezes recebe os pedidos da população na sua própria casa; afinal, são os seus vizinhos. É o antigo presidente da Junta, agora técnico da farmácia, que traz os remédios.
As juntas de freguesia tentam colmatar as falhas no acesso aos cuidados de saúde. E lamentam que as decisões sejam tomadas a nível central e sem consulta aos dirigentes locais. E sentem-se de mãos atadas. "Íamos à farmácia a Poiares, a 10 quilómetros, e agora temos que nos deslocar a Peso da Régua, que fica a 31 quilómetros. Já me prometeram que não fechavam o centro de saúde (extensão)... É muito complicado. Em Agosto, não temos médico na maior parte do tempo", diz José Maria Leonor, 58 anos, aposentado da GNR, presidente da Junta de Freguesia de Galafura. E sublinha: "São as leis do Governo, não são as câmaras nem as juntas que decidem. Eles é que lá sabem o que andam a fazer, mas está mal, a saúde é muito importante!"

in DN, Céu Neves e Orlando Almeida

Os novos empresários tradicionais

Thursday, Aug 26 2010 10:36 A Santa Casa da Misericórdia quer requalificar as atividades tradicionais e através do microcrédito fomentar a criação de pequenos negócios locais gerados por grupos carenciados.

Fomentar a criação pequenos negócios locais capazes de assegurar a empregabilidade e subsistência dos seus promotores e gerar a criação de emprego, é o objetivo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) que anunciou a sua intenção de apoiar a criação de 100 novos negócios por ano, com recurso ao microcrédito. Floristas, cabeleireiros, sapateiros, peixeiras, engraxadores ou até cauteleiros são alguns dos profissionais que podem beneficiar com este programa, mas a instituição tem na mira outros negócios.

Entre meados de 2006 e o ano passado, a Santa Casa de Lisboa apoiou cerca de 200 pessoas na criação do seu próprio negócio. A taxa de sucesso das empresas criadas foi tal que motivou a instituição a criar há pouco mais de um ano o Departamento de Empreendedorismo e Economia Social, com o objetivo de incentivar a criação do autoemprego, detetar o espírito de empreendedor local e fomentar a materialização de novos negócios com potencial financeiro.

António Santos Luiz, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, assume que “o empreendedorismo social é um desafio com futuro”. Apesar da instituição ter alcançado até à data resultados muito positivos na sua intervenção neste domínio, o responsável acredita que “é necessário desenvolver um apoio mais forte para que a taxa de sucesso das empresas que ajudamos a criar se aproxime o mais possível dos 100%”.

Perfil empreendedor, capacidade para gerir um negócio e sentido de responsabilidade, são alguns dos requisitos que compõe o perfil preferencial dos candidatos a este programa. Santos Luiz reconhece que “nem sempre é fácil encontrar este perfil na população abrangida pela Santa Casa, até porque são muitas as situações de vida desestruturadas e a ausência de hábitos de trabalho ou dificuldades de relacionamento”. Mas o responsável clarifica a questão e adianta que “quem não tem o perfil adequado para o programa é encaminhado para outras situações. Tentamos ajudar a encontrar emprego ou investir na formação”.

Cabeleireiros, floristas, peixeiras ou pequenas reparações domésticas são as áreas que, segundo Santos Luiz, têm recolhido mais investimento e apoio pelo Departamento de Empreendedorismo Social da Santa Casa e também uma maior taxa de sucesso. O arranque do projeto depende de que o candidato apresente um plano de negócios aceitável, sendo que pode nesta área contar com a ajuda da instituição ao nível da formação e aconselhamento específicos.

O microcrédito aplicado nestes projetos resulta de uma parceria com o Montepio que financia negócios até 15 mil euros, sendo que como esclarece o responsável, “em média estes projetos representam um investimento inicial de cerca de 9300 euros”. Para António Santos Luiz não há dúvidas de que “são negócios que representam uma dimensão financeira reduzida mas com um impacto social extremamente importante, a de recuperar e inserir pessoas com dificuldades”.

O milagre da micro-ajuda

O conceito que mudou a vida a milhares de pobres em todo o mundo, dando-lhes oportunidades de subsistência que nunca imaginaram ter, surgiu da mente de Muhammad Yunus, o professor de economia que em 2006 alcançou o Nobel da Paz e que foi carinhosamente apelidado de Banqueiro dos Pobres, batizou o seu conceito de Microcrédito.

Yunus acreditou e demonstrou que emprestando pequenas quantias aos pobres para que estes as aplicassem na criação de pequenos negócios rentáveis, conseguiria quebrar o ciclo de pobreza, revitalizar economias locais e integrar socialmente os grupos mais carenciados da população.

A tua teoria foi replicada à escala mundial e por cá somam-se os exemplos. Em dez anos, Portugal assistiu à criação de 1368 empresas com o apoio do microcrédito. Cerca de 40% destes projetos surgiram desde 2008, em pleno contexto de crise. Segundo dados da Associação nacional de Direito ao Crédito (ANDC), a grande maioria (73%) dos negócios criados com recurso ao microcrédito entre 1999 e 2010 ainda se mantém, tendo resistido ao mais conturbado período de crise. Na sua essência são pequenos negócios ligados a restauração, comércio e serviços que necessitaram de um investimento inicial não superior a 10 mil euros para o seu arranque.

Para recorrer ao microcrédito é necessário que o promotor da ideia esteja em situação de desemprego ou não tenha emprego estável e não possua condições de acesso a crédito bancário normal.
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